O I T Q. O riEINO DE KIATO DNO®. lONTEIROlOBATO &77ÍIA Editot»e^>L a^PALJLO O i. *•» n» Ut -ajér- V «é* WÊ**4 .>í Ç’ .?&; . OlivíiiíL', Cesta ô C. ^ > ; u.‘í 'cí;t : /• DC/Kí " .-Sç4 C‘ : ' ' r íORl'^'^ CAPITULO I NEVROZICIDA O dr. John King Paterson era cidadão dos Estados Estados Unidos da America do Norte, formado em medicina, em Inglaterra, na cidade de Cambridge. Concluídos os estudos, voltou ao seu paiz. Apetecia- lhe mais a vida de laboratorio do que a de clinico. Havia feito um curso brilhante de chimica e desejava continuar os estudos desta sciencia. Mezes depois de ter chegado a New-York, installou- se em confortável casa, uma de cujas espaçosas dependen- cias’ transformou em bem montado laboratorio. Homem forte, intelligente, novo, empregou toda a sua actividade na realisação de um sonho, que havia, na Idade Media, tentado muitos espiritos superiores. A visão que fascinou Brandt o deslumbrou também. Paterson amanhecia no laboratorio, de gorro e aven¬ tal, no meio de cadinhos, retortas, balões, maçaricos, bas¬ tões, provetas, frascos de todos os tamanhos e feitios com líquidos de cores diversas. Sereno, mas de testa enrugada, fazia as suas expe¬ riências, as suas analyses, na esperança de realizar o sonho — descobrir a Pedra Philosophal. 8 Rodolpho Theophilo Obsecado por essa idea, que durante séculos empol¬ gou o espirito de grandes homens, trabalhava sem esmo- recimento, convicto de que venceria. O fracasso de tantas mentalidades não o intimidava. O insuccesso dos que trabalhavam naquelle certame fora devido ás poucas luzes do século, nascitura que era a chimica. O que havia então era o sortilégio grosseiro, a magia, o satanismo dominando os espíritos qne trabalhavam na transmutação dos metaes. A alchimia proclamava a iso- mena, mais tarde acceita e confirmada pela chimica mo¬ derna. Berthelot sustentava que era possível a fabrica¬ ção dos corpos simples. Paterson, quanto mais lia as velharias alcbimistas., mais se convencia de que aquelles inconscientes feiticeiros haviam deixado theorias que a sciencia actual perfilhara. Elles affirmavam ser idêntica a composição dos metaes,, isto é, a differença entre o ouro e o ferro, por exemplo, era a proporção dos elementos de que são formados. Ha¬ vendo assim um corpo, ou antes um agente que alterasse as proporções dos elementos constituintes da matéria, da¬ ria em resultado a mudança de um corpo em outro, o co¬ bre em ouro, o chumbo em ferro, etc. O agente, ou força que transformava o corpo, que lhe mudava a individuali¬ dade, conservando a substancia, alterando somente as pro¬ porções das moléculas, era a sonhada — Pedra Phüosophal. A sua formula existira, sabiam-na os que celebravam a missa negra; mas perdera-se no transcorrer dos séculos* Alguns signaes cabalísticos, intraduzíveis, ficaram attestando a sua existência. O mercúrio dos philosophos e dos sábios, não era o mercúrio metal, era um composto de diversas substancias, que se perderam na memória dos povos, subs- O reino de K i a í o 9 tancias que se combinavam sob a acção de forças sobre- naturaes, que agiam sob influencia do demonio. A transmutação se fazia por um liquido chamado leite da virgem, leão verde. O seu poder era de tal natureza que uma onça de mercúrio dos sábios transformava em cem onças de ouro o mais vil metal. Paterson queria descobrir a Pedra Philosophal com a chimica e não com a alchimia. O methodo experimental, a analyse, a synthese, que faltavam aos alchimistas na Idade Media, elle os tinha e com o seu auxilio chegaria á grande descoberta. O fracasso dos seus predecessores — pensava — devia-se á crença de que a transmutação dos metaes se fizesse ao ar livre. Para elle, o oxigênio da atmosphera, com o seu poder oxidante impedia que se alterasse a pro¬ porção dos elementos da matéria. Um sem numero de experiencias havia feito sem re¬ sultado. Exgottára os seus conhecimentos. Restavam-lhe pesquizas no vacuo. Falhassem, embora, estas, continuaria, pois grandes descobertas têm sido feitas pelo acaso. A com¬ posição do ar atmospherico não se deve a Lavoisier e sim ao imprevisto. Semanas e semanas passou ao lado de uma machina pneumática e os metaes não se transmutavam. Agora esta¬ va quasi convencido de que era o ether que se oppunha ao exito de suas experiencias. O ar conseguira eliminal-o; mas o ether que era imponderável, que estava em toda a parte, dentro dos proprios átomos, como supprimil-o ? Quando estudara o atomismo, impressionara-o a theoria do ether. Era uma arrojada hypothese esta de que a sciencia ÍO Rodolpho Theophilo se servia para explicar certos phenomenos que se passavam na natureza. O que se julga hoje um facto real, uma ver¬ dade, o futuro amanhã não provará ser uma hypothese ? A Pedra Philosophal não servia, pensava Paterson, somente para mudar em ouro todos os metaes, mas tam¬ bém para preparar um filtro cuja principal virtude era res¬ taurar a saude nos orgãos doentes do corpo, remoçar as células envelhecidas, dar ao homem grande longevidade, supprimir quasi a morte. Desenganado de obter a transmutação dos metaes, dedicou-se ao estudo do filtro de longa vida. Não queria supprimir a morte, concorrer para a maior desgraça do genero humano. King Paterson não queria um filtro que impedisse á vida percorrer todas as etapas que lhe marcou a nature¬ za, mas descobrir o antídoto da moléstia da civilisação, o contra-veneno da nevrose que, sob diversas modalidades, mina aos poucos a vida dos povos civilisados. A ultima guerra, aquelle ataque de epilepsia collectivo, fôra aviso de uma futura catastrophe, que sacudirá os nervos de todas as nações do mundo numa formidolosa crise epiléptica, se em tempo não se applicar um poderoso nervino. Abandonou os mineraes pelos vegetaes. Deixou o laboratorio pelo campo. Ao despontar o dia sahia a herbo- risar, e quando se recolhia á casa, ás vezes ao sol poente, era carregado de folhas, flores, hastes, raizes e fructos. Co¬ lhia de preferencia plantas do grupo das «mimosas». Paterson começou as suas pesquisas com o micros- copio. As plantas eram previamente dissecadas, sendo seus estudos feitos de preferencia na «mimosa pudica», planta que tinha nervos, sentia. O reino de K i a t o 11 Já a tinham chloroformisado e ella, sob a acção do anesthesico, portára-se como animal. Paterson conseguiu fazer o estudo da ennervação da sensitiva e delle tirou conclusões que bastante o animaram a proseguir em seu projecto. Era preciso, parecia-lhe, mis¬ turar o sensorio vegetal com o sensorio animal para obter um producto sedativo de extraordinário poder. Era o — «contraria contralis curantur». O rachis de um saurio de escamas douradas, muito indolente, habitante das altas penedias, foi escolhido para as suas experiencias. Os nervos do lagarto, misturados aos da «mimosa pudica» e vinagre, foram levados ao vasio e ahi estiveram vinte e um dias, tempo este que Paterson julgou sufficien- te para se dar a combinação. Começou as experiencias fazendo injecções intrave¬ nosas do liquido obtido, em cobaias. Surprehendeu-o o re¬ sultado: um centímetro cubico injectado na veia produziu a morte do animal quasi instantanea, em horríveis convul¬ sões tetanicas. Estava descoberto o «nevrozicida». Era pre¬ ciso atenuar a força do medicamento, dosal-o. Passaram as experiencias a ser feitas em coelhos: uma serie de immunisações, até o animal supportar uma dose de morte sem o mais leve abalo da saude. Continuou as experiencias em cavallos, dos quaes, depois de immuni- sados, extrahiu o sangue e deste o sôro, com o qual pre¬ parou um elixir que denominou «nevrozicida». De posse do segredo, sua alma de yankee não aca¬ riciou a altruistica idéa de revelal-o a bem da humanidade. Os Pasteur são divindades que apparecem de millenio sem millenio. Só os predestinados, os stoicos, supportam 12 Rodolpho Theophilo uma vida inteira de claustro, na escuridão de um labora- torio, vergados sobre a mesa de analyses, cercados de um sem numero de apparelhos, procurando o antídoto da dor, dos males do genero humano, dando combate á morte. E si, depois de annos de exhaustiva labuta, de prolongadas noites de vigilia, conseguem descobrir o remedio da raiva, da diphteria, do carbúnculo, não fazem da descoberta um mo- nopolio em beneficio proprio, regeitam pelo segredo avul- tadissimas sommas, respondem ás propostas que se lhes fa¬ zem que o segredo não lhes pertence e sim ao genero hu¬ mano. A modéstia destes santos chega ao ponto de desva- lorisarem a sua obra affirmando não ser ella producto de seu esforço, de seu trabalho, mas do de milhares de gera¬ ções, de homens que os precederam construindo o vasto templo da sciencia. Paterson não comprehendia as filigranas affectivas do latino. Anglo-saxão, via a vida por prisma differente. A remuneração do trabalho impunha-se-lhe ao espírito como o instincto da conservação. Havia gasto annos inteiros a illustrar-se, dispendi- do grandes sommas com a cultura de seu espírito, immo- bilisado portanto um capital, para, no momento de usu¬ fruir os lucros, pagar-se do trabalho desvendando o seu segredo, a bem do genero humano? ... Seria um fraco, um vencido, se assim o fizesse. Cometeria um erro, um crime contra a humanidade. Rockfeller se tivesse desde o começo de sua vida distribuído, entre os que soffrem, parte de seus lucros, si não os tivesse accumulado, não seria um bemfeltor do ge¬ nero humano. O dinheiro ter-se-ia escoado de sua bolsa para a sacola do pobre, porém á surdina, sem reclame O reino de K i a t o 13 quasi inútil, e o nome se lhe apagaria logo após a morte. Pouco valor teria a sua obra. O que Rockfeller fez deu muito melhor resultado. Accumulou um grande thesouro e depois espalhou pelo mundo inteiro a sua philantropia. Não se limitou a beneficiar a sua patria, ultrapassou-lhe os li¬ mites e foi levar a povos de outras terras e de outros cli¬ mas allivio ás suas enfermidades. Paterson queria primeiro ser remunerado, que se lhe pagasse capital e juros para depois alliviar, se quizesse e como entendesse, os soffrimentos humanos. Os milhões que Pasteur rejeitára pelas suas desco¬ bertas, Rockfeller os gastava agora espalhando pelo mundo inteiro a obra e a gloria do sabio francez. CAPITULO II PATERSON EMBARCA PARA LONDRES. P 1 \ *i I REPARADO o nevrozidda, foi enfrascado e primoro¬ samente rotulado, para entrar em circulação. O baptismo do remedio seria a reclame, mas como preceitua o ritual americano: intelligente, berrante, a accor- dar o publico absorvido na intensa luta pela vida. Paterson, não se achando habilitado para tão difficil tarefa, dirigiu-se a um especialista e contractou por alguns mil dollares o plano da propaganda. Não seria o annuncio esteril de quarta pagina de jornal, mas annuncio que im¬ pressionasse por um ou mais sentidos. New-York despertou um dia atordoada com a recla¬ me do nevrozicida. Lia-se o annuncio por toda a parte. Cartazes, affixados nos lugares mais frequentados pelo pu¬ blico, representavam, em bellissimos chromos, diversos doen¬ tes que com o milagroso remedio haviam alcançado a cura. Bandos de palhaços, vestidos de corres berrantes, per¬ corriam as ruas, a fazer piruetas, distribuindo reclames. (Jma walsa intitulada — Nevrozicida — ouvia-se, tocada por fanfarras ambulantes, espalhando-se por todos os cantos da cidade. Em todos os bairros estava o annuncio. Os vehi- 76 Rodolpho Thcophilo ctiIos levavam-no affixado, dentro ou fóra, para que fosse visto por todos. Um aeroplano fazia evoluções, atirando sobre New- York nuvens de prospectos. Um canhão automático deto¬ nava de 15 em 15 minutos, vomitando milhares de annun- cios pelos suburbios da capital, a alguns kilometros de distancia. A nova do apparecimento do nevrozicida havia che¬ gado a toda parte. A maioria não acreditou na pana- céa, porém um sem numero achou possível a descoberta. Eram estes os doentes que o remedio dizia curar, eram os nevroticos, em suas modalidades diversas, que viam surgir uma esperança e que, na sua desgraça de condemnados ao eterno soffrimento, não podiam deixar de acarinhal-a. O successo do remedio excedeu a espectativa do dr, Paterson. Muitos doentes, altamente sugestionados por si proprios, curaram-se. Estas curas por auto suggestão foram o maior dos reclamos. A filha de um archimilionario, paralytica e hysterica, caminhou e ficou sã, o que deu mais fama ao remedio. Os habitantes da cidade foram-se convencendo pou¬ co a pouco da efficacia do remedio, mesmo os que tinham condemnado a descoberta. No fim de alguns mezes, Paterson estava milliona- rio. Possuia uma somma dez vezes maior que a que havia gasto, porém queria ser mais do que Rockfeller. Os Esta¬ dos Unidos não lhe podiam dar os milhões, que sua am¬ bição desejava. Exploraria a Europa. Iria a Londres, Paris, Berlim, Vienna, aos grandes centros do mundo, emfim. 0 reino de K i a t o 17 Dispoz os seus negocios e embarcou para Londres em um transatlântico inglez. O navio era enorme e de todo o conforto. As alegrias daquelle pequeno núcleo humano con¬ trastavam com as tristezas do oceano. A vida a bordo passava-se num intérmino contenta¬ mento. A par dos gosos de opipara mesa, as diversões do espirito. Durante o dia fazia-se musica, cantava-se, dansava-se. A’ noite, cinema, theatro e dansas. Para não ficarem segregados do mundo, havia im¬ prensa a bordo, que pela manhã noticiava os factos mais importantes occorridos em toda a terra. Eram os milagres da telegraphia sem fio. A viagem ia-se fazendo entre risos e cantares. Um dia o mar irou-se; a sua superfície, que era qual a de um lago de saphira, crispou-se, fez-se revolta, grandes ondas se ergueram em montanhas alterosas e o navio, que vinha singrando como um batel em quedas aguas, tornou-se um joguete nas mãos do enraivecido titan. A bordo não mais se ouviu uma nota alegre. O vento uivava nas obras mortas do navio, queren- dp destruil-as. Os passageiros, amendrontados, recolheram-se aos ca¬ marotes, e afflictos avaliavam a furia da tempestade pelos tombos da embarcação, que espinoteava saccudida pelas on¬ das numa instabilidade perenne. A maruja a postos e o commandante no passadiço eram testemunhas d’aquelle imponente drama. O REINO DE KIáTO - 2 18 Rodolpho Theophilo Que podia oppor a humana força á furia desen¬ cadeada cto vento e do mar ? Os mastros rangiam na imminencia de serem arran¬ cados pelo vendaval. As gaveas tinham sido quebradas e o vento as lançara ao mar. As bigotas e os cabos se haviam rompido e as enxarcias, cahidas a meia nau, eram aos poucos carregadas pelas ondas. As helices moviam-se no ar quando o navio, trepa¬ do á crista de uma vaga monstruosa, afocinhava no abysmo. As ondas varriam a coberta, espadanando espumas de bombordo a estibordo, salpicando até as cestas das ga¬ veas, não alagando o navio, não o afundando por se acha¬ rem fechadas as escotilhas. Parte das obras mortas tinham sido levadas pelas vagas. Os mastros achavam-se de todo nús. Até as antennas do telegrapho tinham desapparecido. Embora sua grande tonelagem, a tempestade brin¬ cava com o navio como um pedaço de cortiça. Havia dez horas que começara a tormenta. Fôra precisamente á meia noite, quando o sarau ia em meio. Eram dez horas do dia, o sol estava alto e o céo parecia envolto ou alumiado pela claridade baça de um crepúsculo vespertino equatorial. O vento foi amainando, tornando-se brando, aca¬ bando em brisa. O mar que se erguia em altas rochas foi se achatando e a sua superfície cavada, nivelou-se como a face de um tranquilo e sereno lago. A treva foi pouco a pouco esmaecendo, diluída pela luz, o mar, o céo, o navio individualisando-se na grande téla, os uivos da tormenta calando-se, e dominando tudo o silencio das solidões marinhas. O reino de K i a t o 19 Camões já havia cantado o contentamento até das cousas depois de «procellosa tempestade». A bordo, voltava a vida com esperança de «porto e salvamento». Os camarotes foram se esvasiando e os salões en¬ chendo-se. As figuras dos festeiros, amarrotadas, nem pa¬ reciam aquellas de dias atraz, frescas e rubicundas as feições e o espirito alegre e socegado. Dez horas de temores e de sobresaltos, a mudança brusca da paz para o perigo, da alegria para a tristeza, ti- nham-lhes cercado os olhos de roxo, da aureola da vigília e da meditação. O commandante fiscalisava o serviço da maruja no concerto das pequenas avarias, que o das grandes era inr possível fazer. As machinas estavam desarranjadas. O navio, meio desarvorado, não chegai ia a Londres. Era preciso arribar. O commandante reuniu os passageiros e expoz-lhes a si¬ tuação. O peior é que a tempestade os havia isolado do mundo, destruindo o apparelho telegraphico e impedindo assim qualquer pedido de soccorro. Nem das velas podiam valer-se, pois o vendaval as havia arrancado dos mastros e sepultado no mar. Arrastando-se, com uma marcha de cinco milhas por hora, o transatlântico seguia para desconhecido porto. CAPITULO III A CAPITAL DO REINO O susto havia passado, a vida voltado a bordo, mas sem os encantos dos primeiros dias. O jornal suspendera a publicação por falta de no¬ ticias. Foi o que mais sentiram os passageiros. Acostumados a ler pela manhã as novas dos factos mais importantes que se passavam em todo o mundo, não se conformavam com semelhante situação. A’ noite os salões ficavam desertos. Todos viviam mais ou menos aprehensivos. Não sa¬ biam para onde os levaria a sorte, nem que tempo duraria a derrota. Uma manhã luminosa e serena, avistou-se terra. Muito longe, no horizonte appareceu um quasi imperceptí¬ vel ponto negro, que foi crescendo á medida que o navio se aproximava. Terra á vista!... E a alegre nova se espalhou em instantes pelo vapor inteiro. O transatlântico ia se arrastando com uma miserável marcha, o que estava em desaccordo com a pressa que os passageiros tinham de chegar. 22 Rodolpho Theophilo A manhã escura foi crescendo, illuminando-se. Já se delineava a perspectiva de um porto com os seus navios. Os passageiros, debruçados na amurada, olhavam pelos binoculos, pretendeudo ver telhados e chaminés de fa¬ bricas. O commandante ignorava em que porto ia fundear. Aquella terra não figurava no mappa-mundi. Os passageiros inquiriam em que terra iam aportar; o capi¬ tão calava-se. O navio cortava agora as aguas quietas da vasta bahia. A cidade estava de todo á vista. Via-se a silhueta da casaria, divulgava-se o vermelho dos telhados e as torres das igrejas. O navio aproximou-se do caes e arreou o ferro. No topo do mastro grande, tremulava havia minutos o pa¬ vilhão inglez. Passou-se o resto do dia, chegou a noite e a terra não se communicou com o vapor. Extranho casol Acostumados a receberem as visitas da saude e da alfandega ao entrarem nos portos, achavam exquisita seme¬ lhante infração ás leis geraes. Mas, ás primeiras horas do dia seguinte, viram um escaler cortando as aguas rumo do transatlântico. A em¬ barcação atracou. Os passageiros, apinhados nas amuradas, tinham os olhares nos tripulantes. Eram estes o homem do leme, o do motor electrico e mais duas personagens. Os recemvindos causaram estupefacção ao pessoal do vapor, que pasmou deante da figura daquelles homens altos, tão altos que mediam mais de dois metros, e que, atravez de uma vigorosa carnação, denunciada na fresca e rosada côr da pelle, exhibiam a mais perfeita saude. Arreada a escada, subiram. Um dos visitantes diri- O reino de K i a t o 23 giu em inglez a palavra ao commandante: era o represen¬ tante da Saude Publica. Indagou do estado sanitario a bor¬ do, se havia alguma pessoa doente de moléstia contagiosa. Obtendo resposta negativa, deu por findo o inquérito. Chegou a vez do outro visitante, o agente do go¬ vernador da cidade, o qual se limitou a entregar ao com¬ mandante alguns exemplares de um manifesto dos poderes públicos do reino de Kiato, escripto em diversas linguas. Depois retiraram-se, permittindo o desembarque dos passageiros, com a condição de serem observadas com todo rigor, as leis do Reino, expressas no manifesto entregue. O commandante leu o seguinte: «A todos que aportarem ao reino de Kiato faço sa¬ ber que: — sendo prohibida a fabricação do álcool e de líquidos que o contenham, como o maior factor que é da degeneração physica, e perversão moral do genero humano, é condemnado á morte todo aquelle que infringir essa lei humana e sabia; os que desembarcarem em estado de embriaguez, of- fendendo a sã moral dos habitantes do Reino, dando um exemplo péssimo de sua corrupção, serão presos e enviados ao navio de que são passageiros e este intimado a deixar o porto dentro de duas horas; prohibido o plantio e, ipso-facto, a manipulação e o uso de fumo, causa que é de graves desordens orgâni¬ cas que encurtam a vida, serão presos e deportados os que clandestinamente procurarem restaurar o uso e o plantio do fumo em Kiato; é prohibido o desembarque em todos os portos do Reino aos doentes de moléstias contagiosas». 24 Rodolpho Theophilo Ao dr. Paterson coube um exemplar do manifesto. A figura mascula dos homens que haviam visitado o navio e agora os dizeres do edito despertaram nelle a curiosidade de ver aquella terra em que se havia solucionado o maior problema social — a extincção do alcoolismo. Paterson era um emerito bebedor e um inveterado fumante; mas, mesmo assim, não podia deixar de admirar a grande conquista em prol da saude, da moral da huma¬ nidade. Queria ver como viviam as gentes, que se haviam libertado do jugo do maior dos tyranos, que envenena cinco gerações successivas. Queria ver o povo que teve a suprema ventura de exterminar de seu seio o maior dos matadores. Disposto a sacrificar o whisky e o tabaco por alguns dias, desembarcou. As suas surprezas começaram no caes. O escaler atracou em uma escada de largos de- graos de mármore negro. Subiu-a. Chegando ao patamar, aproximou-se-lhe um homem que lhe pareceu agente do poder publico. Trajava roupas leves de brim e não trazia insígnias de autoridade. Era um latagão de mais de dois metros de altura, espadaúdo, thorax largo, côr rosea, phy- sionomia - alegre. Saudou o dr. Paterson em francez, e, como este tivesse correspondido ao cumprimento em inglez, pediu nesta língua que lhe desse o nome, profissão, ídade, naturalidade, e destino, pois ficaria sob as vistas da po¬ licia. Satisfeitas as exigências do agente, Paterson seguiu rua afora. Era original tudo quanto ia vendo. As ruas eram todas de construcções elegantes, isoladas por jardins. De mil em mil metros uma praça arborisadà de plantas O reino de K i a t o 25 que se conservavam vestidas todo o anno e, nos claros, can¬ teiros de todos os feitios, emmoldurados por uma grama de folhinhas meudas, cujas nervuras pareciam de ouro. Dentro das molduras verde-gaio, formando losangos, qua¬ driláteros, trapézios, cresciam rosas, jacynthos, lyrios, tuli¬ pas, de um vigor, frescura e perfume em tudo differentes do que até então tinha visto em outras partes do mundo. Paterson parou, impressionado pelas cores vivas das corol- las e pelo suavíssimo perfume que delias se evolava. Havia ali flores qne não conhecia. O viço dos vegetaes estava de perfeito accordo com o vigor dos homens. Uma roseira, sobretudo, prendia a sua attenção. Era uma rosacea, anã, de longos aculeos curvos e acerados, fo- liolos pequenos, com o limbo luzente, como prateado. A flor era exquisita e curiosa. Tinha corolla de um sem numero de pétalas azul ferrete, quasi negro, como que brunidas, com reflexos metallicos, e no centro os or- gãos de reproducção, alvos como arminho; engastava-se num pedunculo curto, envolvida num ambiente de delicado e subtil perfume. Seus olhos não se cansavam de mirar aquella belleza, quando viram outra belleza suspensa de um galho da roseira. Era uma crysallida, uma joia que resplendia aos raios do sol. Quiz apossar-se delia, mas conteve-se; seria um cri¬ me de prisão ou de degredo. Contentou-se com se aproxi¬ mar quanto ponde e de perto apreciar aquella maravilha da natureza. Embevecido ficou quando viu que a túnica que envolvia a nympha, em seu somrio de crysallida, era uma joia de subido valor, como artista algum havia imaginado. 26 Rodolpho Theophilo O corpo era de ouro, a cabeça de platina e o dorso tinha, engastado em cada articulo, um rubi espinela. Paterson havia visto crysallidas de um sem numero de variedades de borboletas, mas nenhuma egual a esta. Amando a natureza com os seus apurados sentidos de artista, com uma solida cultura de Historia Natural, vi¬ sitava a crysallida todas as manhãs, cada vez mais enamora¬ do de sua belleza. Uma manhã, qual não foi a sua decepção, quando encontrou vasio o sudário que amortalhara a nympha, mas um sudário como feito de escuro pergaminho sem reflexo metálico, sem uma joia, semelhante a uma escara de ulcera. No chão, uma pequena borboleta côr de chocolate, feia, se arrastava, com as azas ainda húmidas, esperando que seccassem para voar. Paterson soube mais tarde que essa rosa se chamava rainha de Kiato. Farto o antigo herbanario de apreciar tantos speci- mens curiosos, seguiu rua a fora. Andava e parava, estupefacto com as maravilhas que seus olhos iam vendo. Tudo ali era differente e superior ás outras agremiações humanas que conhecia. Os transeuntes que ia encontrando obrigava-os a parar para contemplal-os — exemplares perfeitos de virili¬ dade, de força, de saude. O seu trajar era modesto e de perfeito accordo com os preceitos da hygiene. A vestimenta das mulheres, que em todos os paizes pecca pelo exagero, pelo descaso da saude, pela infracção ás leis do pudor, da decencia mesmo, ali era moldada nos mais sãos princípios da hygiene e da moral. O reino de K ia t o 27 Bellas mulheres, mais bellas do que as inglezas quan¬ do bellas e novas. Que elegancia no porte, que modéstia no vestir!... Nellas não havia os artifícios da moda: apre¬ sentavam-se como eram. As faces coradas não de arrebi¬ que, mas do carmim da saude. A vida via-se nellas espocar por todos os poros da carnação sadia. O busto conservava- se erecto, em perfeita elegancia, não obedecendo o porte á constricção do espartilho, cujo uso havia sido condemnado como nocivo á saude. Quem o usasse pagaria pesada multa e, na reincidência, a pena de prisão por cinco annos. Paterson olhava a estatura das mulheres, fora do commum, se bem que muito de accordo com a dos homens, e reparou o calçado. Grande foi a sua admiração quando as viu, senhoras solteiras e casadas, usando sapatos de tacão baixo como o dos homens. Este uso havia sido imposto por uma lei que punia com grande multa o sapateiro que fizesse calçado de tacão alto. Aquellas mulheres tinham a graça natural do sexo, graça sem affectação, sem coquetismo. As louras eram lou¬ ras; não mudavam a côr dos cabellos pelo artificio. Paterson, depois de ter caminhado algum tempo, no¬ tou que a edificação se modificava, que havia soberbos edi¬ fícios, sobrados de dois, tres e quatro andares, prédios de architectura antiga, uma cidade velha cercada pela cidade nova. As habitações não eram isoladas nem ajardinadas. Era a capital do Reino no tempo da decadência, quando o uso do álcool ainda não havia sido abolido. O dia estava alto. Paterson procurou um hotel. Es¬ trangeiro, pediu informações ao primeiro transeunte que encontrou. Com muita attenção e cortezia, offereceu-se este a acompanhal-o á hospedaria unica que havia no lugar. 28 Rodolpho Theophilo Seguiram e pouco tiveram que caminhar para se achar em frente do hotel, um prédio de construcção an¬ tiga, mas de fachada limpa, como se tivesse sido edificado ha pouco tempo. Paterson agradeceu a gentileza do cicerone e subiu a escadaria do sobrado. Achou-se em breve na sala de es¬ pera do primeiro andar, um compartimento pouco espa¬ çoso, de aceio rigoroso, bem mobiliado: ao centro, uma mesa coberta de mármore, sobre a qual um livro; ao lado, uma escrivania. As paredes eram núas, á excepção de uma em que estava suspenso um quadro com estes dizeres : CODIQO DO HOTEL Aquelle que se abrigar aqui estará em perfeita segurança, não só a sua pessoa como os seus haveres garantidos pelas leis as mais sabias do mundo. Exige-se que o hospede cumpra os seus deveres e respeite os direitos dos outros. O uso do álcool é aqui prohibido, sob pena de morte e também o do fumo, sob pena de expulsão do Reino. O hotel fecha-se ás 10 horas da noite. Antes de annunciar-se, leia a tabella de preços, condições, e caso acceite inscreva-se no livro que tem á vista: nome, idade, natu¬ ralidade, profissão, o navio em que aportou, data e destino. Depois, sente-se um minuto em posi¬ ção de ser photographado annundando-se pela campanha electrica». O reino de K i a t o 29 Paterson achou muito original tudo aquillo, mas sa¬ tisfez as exigências e annunciou-se. Abriu-se de prompto uma das portas que davam para o interior da casa e appareceu o dono do hotel. Pa¬ recia que o espiavam. Pela figura viu Paterson que era um estrangeiro: não tinha o porte, a estatura, o fácies dos naturaes que até então tinha visto. Saudaram-se em inglez. Paterson, troca¬ das as primeiras palavras, pensou falar com um conterr⬠neo. Não era, nascera na Inglaterra. Não houve o abraço apertado do latino, mas o enér¬ gico aperto de mão do inglez. Paterson, guiado pelo hoteleiro, entrou para o inte¬ rior da casa, atravessando os compartimentos maravi¬ lhado pela ordem, pelo aceio de tudo. A luz entrava por toda a parte e o ar circulava em todas as direcções. Respirava-se uma atmosphera leve, im¬ pregnada daquelle perfume todo especial, que se desprende das cousas bem tratadas e limpas. Jarros de flores alegra¬ vam as salas. Nos peitoris das janellas enredavam-se tre¬ padeiras numa irama verdoenga, salpicada de pequeninas corollas multicores e cheirosas. Via-se a hygiene pontificando em todos os cantos. Si em um hotel havia tanto culto á saude, imagine-se nos domicílios ! E todos esses preceitos eram observados es¬ pontaneamente, sem a fiscalisação dos poderes públicos. Paterson foi agasalhado no quarto n. 50, esplendido compartimento com duas janellas para o jardim, as quaes o arejavam e illuminavam fartamente. As paredes pareciam envernizadas, tal o polimento da argamaça amarello des¬ maiado. 30 Rodolpho Theophilo No canto, uma banca com um jarro de bellas e perfumosas flores. Uma commoda, uma secretaria com seus pertences, um guarda roupa, cabides, cadeiras, uma estante com livros e um leito coberto de alvos lençóes de linho completavam o mobiliário. Numa das paredes um apparelho telephonico. No fundo do quarto um lavatorio de mármore com seus pertences aos lados, duas estreitas portas, uma que dava para o banheiro e outra para uma sentina, que impressionava não só pelo systema como pelo aceio. No pequeno quarto sentia-se a mesma atmosphera leve de toda a casa. A’s onze horas precisamente soou o telephone. Pa- terson ia levantar-se para chegar ao apparelho, quando deste lhe disseram, em voz bastante clara, que estava servi¬ do o almoço. Ficou perplexo. Este povo, não havia duvida, andava na frente de todos os outros. Minutos depois, estava na sala das refeições. Sen¬ taram-se á meza redonda seis hospedes, estrangeiros quasi todos. Não sabia Paterson o que mais admirar, si a bai- xella de prata, si o serviço de porcellana, fabricação de Kiato. Foram servidos diversos pratos: ovos, legumes, hor¬ taliças, peixe, fructas e doces. Não se serviu chá, nem café. Depois do almoço, Paterson sahiu. O viver original daquella gente, os seus hábitos e costumes interessaram-no extraordinariamente. As horas escoavam-se de surpreza em surpreza. Aonde iria ? pensou. Um bonde electrico passava. Tomou-o. O carro era O reino de K i alo 3/ luxuoso, os assentos os mais commodos que se podiam imaginar. Logo que se sentou, o conductor, um homem de fina educação, apresentou-lhe uma bolsa para a espórtula, grande ou pequena, conforme quizesse. Poderia também deixar de fazei-o, visto ser um tributo facultativo, — disse-lhe em inglez o encarregado do vehiculo. Paterson, surprehendido com semelhante systema de cobrança, deixou cahir dentro da bolsa uma pequena moeda. O carro vinha cheio, somente de homens. O ameri¬ cano, que tudo observava, viu que dentre os passageiros não houvera um só que se recusasse a dar a espórtula. — Que terra! que povo!... dizia comsigo. Depois de um passeio de alguns kilometros voltou para o hotel. A parte da cidade que atravessava era outra: as casas de construcção leve, elegante, cercadas de jardins. Onde seria o bairro dos pobres, dos operários? Seria possível que naquella cidade todos fossem abas¬ tados ? Observando com mais attenção as vivendas, notou a differença entre a casa do pobre e a do rico. A d’aquelle era menor, de fachada simples e, em vez de jardins, era cer¬ cada de canteiros de hortaliças; apenas um, em frente á casa, e este mesmo pequeno, exhibia flores, roseiras e tulipas. Poucos eram os transeuntes. Era a hora do trabalho e as gentes da cidade deviam estar nas fabricas e nas officinas. Ouvia-se aqui, ali a chiadeira das machinas, o zum-zum dos teares, o ruido das roldanas, o sibilar das polias, o at- trito das engrenagens, fundindo-se todos estes ruidos num- 32 Rodolfiho Thcophi lo som único, grave, rouco, que se espalhara pelas cercanias das fabricas, das officinas. Paterson ia a passo lento, saboreando com o fino tacto de seu espirito culto o delicioso viver daquella gente. Chegou ao hotel quasi á hora de jantar. Feita a refeição, conversou algum tempo e ás 7 ho¬ ras da noite sahiu para vêr a vida da cidade quando se acabava o dia. Na rua, sentiu a impressão de estar em um reino encantado. As lampadas eléctricas scintillavam por toda a parte, com clariaade tal que se liam á distancia os cartazes, ap- pensos ás paredes, em letras miúdas. Os jardins públicos, que eram innumeros, começa¬ vam a encher-se de gente. Parecia que toda a população da cidade deixava as casas e vinha espairecer nos logradouros públicos, divertir-se nos cinemas e theatros. De todos os lados vinham symphonias. As musicas eram alegres, consoante a alma daquella gente. Paterson entrou num dos jardins para ver como se portavam ali os visitantes. Ficou maravilhado. Os ban¬ cos estavam repletos. Cavalheiros e senhoras passeavam pelas alamedas conversando. Que cordialidade e que ma¬ neiras fidalgas! Senhoras casadas e solteiras riam e pales¬ travam com guapos mancebos, sem derriços, nem coquet- tismo. Sahiu e entrou num cinema. Que óptima impres¬ são teve! Nunca vira uma disposição tão sabia, aliando o util ao adoravel. O salão era espaçoso. Tão bem dispostas eram as communicações do ar de fora com o ambiente da sala, tão bem collocados os ventiladores, que, embo- 0 reino de K i a t o 33 ra o calor reinante, sentia-se uma aragem fresca, e não a quentura, o afogadiço de atmosphera confinada. O serviço technico era o que de perfeito podia de¬ sejar-se. Paterson, que queria avaliar a moral daquella gente pelas fitas que se iam exhibir, teve agradavel surpreza. Nun¬ ca vira cousa egual. Todas as scenas, todos os episodios tinham um unico fim: — «fortalecer e levantar o espirito na pratica do bem». Reviviam aquelles lances a vida do povo, a sua edu¬ cação civica e domestica. Nem uma passagem naquelles dramas humanos falava do crime, ensinando ou incitando a commettel-o. A maldade era execrada, não se descreven¬ do, porém, os seus múltiplos modos de agir... O álcool, como o maior factor das desgraças do ge- nero humano, era a matéria dos dramas. Um destes agradou-o bastante. Era no tempo da decadência. Um operário casado, com filhos, arrastava uma vida de misérias, embriagando-se diariamente. A’ tarde, sahindo da fabrica, entrava na taverna e ahi ficava até tarde da noite quando se recolhia, bêbado, á casa. O pequeno jornal era quasi todo gasto com o álcool... A familia soffria privações. A mulher e filhos vi¬ viam semi-nus e mal alimentados. Aquelle lar era triste com todo o desconforto da morada do vicio. Desappareceram um dia as bebidas alcoólicas por um golpe de Estado de uma energia quasi sobrehumana. Não foi, porém, creando pesados impostos, sobre bebidas alcoólicas, mas prohibindo a sua fabricação. O tempo passa e naquella habitação, onde até então só se ouvira gemer e praguejar, raia a alvorada de uma O REIÍIO. DE Kl ATO —- 3 34 Rodolpho Theophilo nova era. Já ha sorrisos com o renascimento da esperança de melhores dias. O chefe da familia regenera-se, ou antes não bebe mais porque não tem o que nem onde beber. A sua vida normalisa-se, da fabrica para casa. A fome e a nudez desapparecem do lar. Estão salvas as victimas do álcool. A sessão cinematographica terminou ás 9 horas e 45 minutos. Ao soarem as dez, entrava Paterson no hotel, precisamente quando os sinos de todas as igrejas badala¬ vam, precisamente seis vezes, o toque de «recolher». Mal foi ouvido o signal, e a grande capital reco¬ lheu-se para dormir. Desertos ficaram os parques. A guarda urbana, que devia, áquella hora, percorrer a cidade, tinha sido ex- tincta, havia muitos annos por desnecessária. O cidadão de Kiato, cumprindo religiosamente os seus deveres, res¬ peitando os direitos dos outros, não precisava que a força publica velasse pela cidade. CAPITULO IV A IMPRENSA P ATERSON passou a noite em sonhos alegres. Pela ma¬ nhã, despertou satisfeito. Já os jornaes do dia esta¬ vam sobre a secretaria. Como tinham chegado até ali, ignorava. Feita a toilette, refestelou-se numa poltrona, com os cinco diários da terra. Estava curioso por conhecer a imprensa de paiz tão original, que lhe parecia o reino das mil e uma noites. O primeiro jornal que abriu maravilhou-o pela fei¬ tura material. Papel e impressão não podiam ser melhores. Era escripto em inglez. Começou a leitura e logo se interessou. Era um bem lançado artigo sobre hygiene escolar. Leu-o, num crescendo de enthusiasmo. As ideas expendidas eram novas e os conselhos de alta sabedoria. Seguia-se-lhe outro artigo — «Desordens produzidas pelo tabaco no organismo humano». Leu e pasmou deante da erudição do autor. As moléstias originadas pelo uso do fumo eram tratadas com proficiência. As desordens dos centros nervosos ataca¬ dos de preferencia pela nicotina descrevia-os com simplici¬ dade, com clareza, ao alcance de todas as intelligencias 36 Rodolpho Theophilo As falsas intermitências do coração e alguns tics nervosos mereciam aprofundado estudo. O terceiro artigo intitulava-se: — «Agua que não é potável e aseptica não deve ser usada». Paterson leu com prazer aquella excellente lição. O autor provava que uma agua pode ser potável e não ser aseptica e vice-versa. O que causou pasmo ao americano foi a descripção do manancial que abastecia a cidade, obra que tocava ás raias do inverosímil. Não era a obra d’arte em si, o enorme tanque de mármore que servia de reservatório, os filtros inventados por um engenheiro da terra e fabricados com uma argila especial, superiores aos de Pasteur, o sys- tema rápido de arejar agua, a téla metallica de malhas meudas evitando a entrada do menor insecto, a cober¬ tura do manancial a certa altura da superfície d'agua, per- mittindo a circulação do ar, mas impedindo o menor raio do sol, não era tudo isso o que deveras maravilhava e surprehendia Paterson. Era a resolução do grande proble¬ ma — a destruição das toxinas sem prejuiso das qualidades potáveis e inócuas da agua. Seguia-se-lhe um artigo com esta epigraphe: — «A syphilis é o segundo flagello que persegue a humanidade.» Era uma lição em estylo simples, mas fluente, o historico desta terrível enfermidade, extincta no Reino. Mostrava como destroe o organismo humano, sua trans¬ missão a suecessivas gerações. Provava com grande clareza que o virus é levado pelo spermatozoide ao ovulo e como este é fecundado e ao mesmo tempo infeccionádo. Assim, ao feto se transmitte a syphilis do organismo que o gerou. Provado como o ser se contamina na vida uterina, ex¬ plicados estão os abortos, os «natimortus», as creanças 0 reino de Ki a to 37 que morrem de fraqueza congênita, dias depois de nasci¬ das. O autor, para corroborar suas asserções, publicava uma estatística dos natimortus e dos recem-nascidos antes e depois da extinção da syphilis. O valioso documento era um attestado insophismavel contra aquelle virus. Por elle se via que, dois annos depois de desappa- recida a syphilis, a cifra dos obitos foi decrescendo annu- almente e que, quarenta annos depois, foi registrado um só «nati-mortus». Seguia-se uma serie de considerações e de conse¬ lhos de prophylaxia, não áquelles que viviam no Reino, mas aos que estivessem em via de sahir, pois onde quer que fossem haviam de encontrar-se com o flagello. Os casos pathologicos, os mais horrorosos de ori¬ gem syphilitica, eram relatados de modo a impressionar os mais indifferentes. A syphilis era, como o álcool, inexorᬠvel; não se limitava a atacar a victima, não se satisfazia em vel-a apodrecendo carnes e ossos, em desfigural-a, tor- nal-a abjecta, repellente, exsudando pús por todos os po¬ ros ; levava seus males á prole, a cinco gerações seguidas. E fora este monstro, cuja peçonha é tão virulenta, tão resistente, que passa do pai ao filho até o filho do tri¬ neto, que um rei enérgico e sabio, um predestinado, depois de uma luctade algumas dezenas de annos, conseguira matar. Seguia-se o artigo: «O álcool é o factor primordial do suicídio». Pagina de moral e de sciencia, descrevia scenas sentidas e vividas. O autor provava que o suicida é um alienado, que foi procreado por um alcoolico, como também o epiléptico, o assassino nato, o ladrão, emfim todos os tarados, a escoria vil da pobre humanidade. Depois de varias considerações, de exemplos os mais 38 Rodolpho Theophilo frisantes, provando ser o alcoolismo uma enfermidade he¬ reditária, contra a qual, salvo raríssimas excepções, são de nenhum effeito a vontade e os conselhos baseados na san moral, publicava uma estatística dos crimes praticados em Kiato antes e depois da abolição do álcool. Os suicídios, os assassinatos, os roubos, os attentados ao pudor, o adultério, todos os crimes foram decrescendo até se acabarem de todo. Fazia vinte annos que se tinham fechado as penitenciarias do Reino. As duas primeiras paginas do jornal constavam de artigos uteis á collectividade, de estudos de agronomia, ensinando a amanhar os terrenos, cultival-os, adubal-os, aconselhando a melhor qualidade de adubo para esta ou aquella especie vegetal. As outras duas paginas eram reser¬ vadas a annuncios, mas até no reclamo via-se a bôa moral daquella gente: era laconico, um simples aviso sem os engodos do yankee. Paterson passou a ler outro jornal. Qual não foi a sua surpreza quando viu que tinha cinco exemplares da mesma folha, escriptos em differentes línguas. Havia lido a edição em inglez; os quatro nume¬ ros que restavam eram publicados em francez, hespanhol, allemão e italiano. Paterson estava maravilhado. Seria possível que na- quella terra não houvesse política ?! Que não houvesse desavenças?! Conhecia a imprensa dos paizes mais cultos do mundo e toda ella era o reflexo do viver daquellas sociedades, com todos os seus vícios e misérias. Interessado cada vez mais por conhecer a vida idea daquelle povo, levantou-se, foi ao salão de jantar tomou chocolate e sahiu. CAPITULO V EDIFÍCIOS E ESTATUAS O S edifícios eram todos na cidade antiga. Paterson atravessou a capital moderna e achou- se em ruas estreitas, de prédios de tres andares, que attestavam a decadência da architectura. Tinham porém as fachadas limpas, as quaes os habitantes não deixavam encardir. O portão do primeiro edificio em que parou era de grandes dimensões. Lia-se n’um frontão de mármore — Penitenciaria. Nem um soldado no vestíbulo. Dentro do casarão um ruido de ensurdecer. Eram sons de todos os timbres e alturas que, fundindo-se numa onda cavernosa, espalha- vam-se por toda a cercania. Paterson entrou no atrio. Não havia porteiro. Esta figura era ali, como em toda a parte em Kiato, represen¬ tada pela campainha electrica. Porteiros houve no tempo da decadência, quando a moléstia invalidava o homem. Annunciou-se. No fim de alguns minutos appareceu- Ihe um homem de meia idade. Typo digno daquelie povo forte. Depois dos cumprimentos, Paterson mostrou desejos 40 Rodolpho Theophilo de visitar a penitenciaria, então transformada em uma fabrica de calçados. Acompanhado do gerente entrou e juntos percorre¬ ram todas as secções daquella grande colméa. No tempo da decadência o edifício era occupado por quinhentos malfeitores, victimas do álcool e inúteis á Nação. Agora eram algumas centenas de homens e de mulheres ennobrecidos pelo trabalho, honrando a especie humana. Reinava alli absoluta ordem, absoluta limpeza, abso¬ luto silencio. Zelosos, activos, os operários se moviam ca¬ lados, dadas as ordens por apitos ou toques de sineta. Ainda não accordára daquelle como que sonho e já se lhe deparava novo, enorme edifício. Era o — Forum — nome que se lia no frontão de mármore. A porta do vestíbulo estava aberta e dentro parecia não estar ninguém. Entrou. Procurava o botão electrico para- annunciar-se, quando leu um quadro appenso á pa¬ rede : — «Pode entrar e satisfazer a sua curiosidade». Paterson sorriu e entrou. Logo que transpoz o atrio, achou-se num espa¬ çoso salão ricamente ornado, um palacio de fadas. O mo¬ biliário era feito com as madeiras mais preciosas do Reino e estufado com os mais caros veludos. Ao centro do salão, uma comprida mesa coberta de damasco violeta, de mogno, insculpida de filetes de marfim. Em uma das cabeceiras, uma poltrona e de cada lado seis cadeiras também de braços, assento dos treze juizes que tinham de julgar em ultima instancia os deli¬ dos de seus concidadãos. Sobre a mesa erguia-se uma estatua de um metro de altura, a Justiça, representada por uma mulher, de olhos vendados, tendo n’uma das 0 reino de Kialo 41 mãos uma balança e na outra uma espada. No pedestal, esculpida em placa de madeira, esta legenda: — «Este é o symbolo mais falso da justiça humana, aqui collocado no tempo em que os homens pervertidos e embrutecidos pelo álcool, reunidos em conselhos, julgavam o seu seme¬ lhante ; alguns vinham bêbados e outros com a consciência vendida. Lavraram-se aqui sentenças de morte condemnando innocentes á forca. Conserva-se esta pagina flagrante da nossa decadência como uma affirmação do poder do espi¬ rito humano na conquista de sua perfeição». Empolgado por éssas palavras, Paterson veio outra vez para a rua. Não tardou a encontrar esta placa — «Asy- lo de Alienados». A mesma curiosidade que o levára a percorrer os outros edifícios, fêl-o entrar. Não sei o que mais admirou o visitante: si os ma- chinismos, si a ordem, a disciplina, a excellente quali¬ dade dos tecidos. Que estofos!... A sêda primava pela qualidade dos fios e pelos padrões. A matéria prima era producto do Reino. Uma variedade de «bômbix» havia em Kiato que produzia fio mais fino e mais forte do que o do «bômbix» commum. A selecção produzira tão preciosa variedade. A moléstia da borboleta, que se transmittia á crysalida, grassou como verdadeira epizootia em todo o Reino. Mas, depois da decadência, um medico descobriu a prophylaxia do mal, augmentando assim a riqueza publica. A sêda constituía uma excellente industria em que se occupavam muitas mil pessoas, especialmente mulheres e toda era exportada, pois este tecido os habitantes de Kiato o proscreveram pouco tempo depois de sua regene¬ ração. Os seus manufactores auferiam grandes lucros com 42 Rodolpho Theophilo tal commercio. Livre a exportação de qualquer tributo, transformaram-se em fabricas as alfandegas da epoca da decadência. Paterson continuou a sua visita. Os hospitaes, os asylos, o parlamento, os edifícios dos diversos ministros, as repartições de fazenda, os palacios de recreio da famí¬ lia real — eram hoje occupados por diversas industrias* Para que hospitaes, si não havia doentes? Manicô¬ mios, si não havia loucos ? Asylo de Mendicidade, si não havia mendigos? Para que Parlamento si as leis se resu¬ miam nestes dois preceitos — cumpre o teu dever e res peita o direito dos outros — e estavam na consciência de todos os kiatenses, que os cumpriam religiosamente ? Paterson ia voltar ao hotel quando divisou ao longe uma estatua. Uma estatua 1... exclamou. Um povo tão original a quem perpetuaria no bron¬ ze ? Curioso, aproximou-se. Estava o Nazareno, de pé, so¬ bre um pedestal de metros de altura, no seu elevado porte, a imagem perfeita, vestido em sua túnica de purpura, na posição de quando pregava na montanha. A estatua era de mármore cor de rosa, mas as tin¬ tas das vestes eram de diversas cores, tão indeleveis que pareciam frescas. No pedestal de mármore negro lia-se, em letras de alto relevo, o decálogo. Mais abaixo, esta inscripção:— «Descobri-vos e ajoelhai-vos ante o homem que pregou ha séculos a fraternidade humana. Abstrahida mesmo a sua origem divina, fica ainda um dos maiores vultos da humanidade.» Paterson admirava em soliloquio a perfeição a que O reino de Kia t o 43 havia chegado aquelle povo. O decálogo observado daria como consequência — «a fraternidade humana» ? Como cumpril-o si o homem, embrutecido pelo álcool, não o podia comprehender ? Era preciso primeiro purifical-o, e a desintoxicação não se faria em pouco tem¬ po: seriam precisos dezenas de annos, abalar até os ali¬ cerces o edifício social e depois reconstruil-o em moldes novos. Uma vez reconstruído de accordo com os manda¬ mentos da lei de Deus, reinaria a paz em todo mundo. Cada vez mais curioso, perguntou por outras esta¬ tuas a um transeunte. Apontou-lhe este tres, em cuja busca se foi. A empreza não se tornou difficil. Pouco adeante encontrou a estatua de Pasteur: sobre elevado pedestal o vulto do sabio francez, a physionomia de santo, sopeando tres dragões degollados: a raiva, a diphteria, o carbúncu¬ lo... No pedestal esta legenda: — «Ajoelhai-vos deante do maior bemfeitor da humanidade até hoje». Paterson poz-se de joelhos, e entoou muda saudação ao vulto mais imponente da humanidade. Visitou a terceira estatua, a do rei Pantaleão I. Era fundida em bronze. Trajava como os seus súbditos. Na mão direita tinha uma espada. Da mão esquerda pendia uma folha de mármore em que se lia: — «Cumpri o vosso dever, res- peitae os direitos de vossos semelhantes e a paz estará comvosco». Calcados sob seus pés, tres abomináveis mons¬ tros, qual mais hediondo, abertas as fauces: o álcool, a syphilis e o tabaco. Na base da peanha lia-se: 44 Rodolpho The ophilo — «Amai e respeitae a memória deste grande ho¬ mem que, com uma energia sobrehumana, conseguiu ex¬ terminar em sua patria os maiores flagellos da humanidade. Elle foi um illuminado, um super-homem, cuja memória se perpetuará até á consumação dos séculos». A quarta estatua, em mármore, era de Jenner e re¬ produzia com fidelidade a figura do sabio. Na peanha deitava-se um varioloso da fórma con¬ fluente, apodrecendo vivo, uma copia flagrante do real. Observando-se detidamente a devastação da moléstia ha- qiielle corpo, em que as carnes putrefactas se fundiam num liquido peçonhento, a illusão era tal que o olphato parecia sentir o cheiro nauseabundo da salmoura fétida, que escorria das carnes corrompidas. Tinha-se uma sensação do real: a figura parecia de carne humana dissolvendo-se em pús. Trazia, no pedestal, estes dizeres: — «Jenner foi um vidente. Acha-se aqui como um dos maiores bemfeitores do genero humano e em particu¬ lar como o salvador de Kiato, que viu morrer metade de seu povo durante uma epidemia de variola». Paterson voltou ao hotel. Esse povo era effectiva- mente grande, dizia comsigo. Para elle, o mérito estava na razão directa dos serviços que o homem presta aos seus semelhantes, o que provavam as estatuas. Os heroes que se sagraram no campo da batalha, os Napoleões, porque não eram perpetuados no bronze ? Seria possível que não os tivessem ? Onde estavam os seus Annibal e Cezar, conquistadores de alheias terras, escra- visadores de homens, para a sua patria ? O reino de K i a t o 45 Tinham, sim, e á sua memória já haviam erguido monumentos. Mas, ao despontar da era nova, recolheram- nos aos museus, como documentos históricos. Não podiam figurar nas praças de um Reino sendo execrados pela população como homens que destruiram, que mata ram} que nada fizeram pela felicidade do genero humano. CAPITULO VI A INSTRUCÇÃO PUBLICA P ATERSON, quanto mais tempo vivia no meio daquella gente, mais a admirava. O sacrifício que fizera abstendo-se do tabaco e do whisky era bem compensado pelo goso que fruia obser¬ vando o viver original dos kiatenses. Sentia-se melhor de saude. A gôta não o apoquentava muito, as íntermitten- cias do coração estavam quasi extinctas, devido á mudança de regimen e á abstenção completa do álcool. O meio era salutar, mas Paterson não estava rege¬ nerado. Encontrando whisky e tabaco, continuaria a beber e a fumar, embora a gôta o atormentasse e o coração per¬ desse o rithmo. Nas refeições em commum, notou a sobriedade do kiatense. A alimentação constava de hortaliças, leite, ovos, frutas, doces e algum peixe. Desejoso de conhecer o gráo de cultura intellectual daquelle povo, começou as suas visitas pelas escolas prima¬ rias e foi até á Universidade. Tinha, como todo aquelle que não conhecia Kiato, uma idéa muito falsa da influencia da cultura do espirito na moral do homem. Estava acostumado a ouvir todos os 48 Rodolpho Theophilo dias como axioma — «abrem-se escolas e fecham-se cadeias». Nada mais falso. A guerra dos povos civilisados, os mais cultos, a ul¬ tima guerra, quasi mundial, provara o nenhum valor da cultura do espirito na perpetração dos crimes. A guerra que é sinão um assassínio collectivo? Estava convencido de que não era a escola que fe¬ chava a penitenciaria. Quiz ver como ali se ensinava a ler, e entrou na primeira escola que encontrou. Em um salão isolado, cercado de jardins, fartamente arejado e illuminado, uma mulher ainda nova leccionava a vinte creanças, numero máximo da matricula. Cada me¬ nino occupava uma carteira, construída pelos sãos precei¬ tos da hygiene de accordo com a idade de cada qual. Paterson pediu licença e entrou. A professora co¬ nheceu immediatamente que elle era estrangeiro. Com toda a gentileza, convidou-o a sentar ao lado delia e continuou a lição a um pequerrucho de seis annos, que já lia e co¬ meçava a contar. O menino exercitava-se contando umas espheras de borracha numeradas de um a cem. Tinha que contal-as pondo-as em ordem numérica até formar u- ma centena. Depois, dividir a centena em dezenas. Seguiram-se outros exercícios: leitura, escripta, ope¬ rações arithmeticas nos quadros de aidozia. O ensino era todo intuitivo. A professora levou a maior parte do tempo explicando, de giz na mão, ao lado da pedra. A aula terminou, quatro horas depois de começada, com uma palestra da preceptora sobre hygiene do corpo, os deveres da creança e o respeito dos direitos dos outros. Desde a infancia, prégavam ao cidadão do Kiato aquellas 0 reino de K. i a i o 49 doutrinas. Começava a ouvil-as desde a escola primaria até á universidade. Ver uma escola era ver todas. O magistério ali não era exercido como simples meio de vida. O titulo de pro¬ fessor era honra naquelle meio. A nação pagava com pro¬ digalidade os pedagogos, percebendo os professores prima- rios os mesmos honorários que os professores da uni¬ versidade. Ensinar a ler era tarefa superior a ensinar disciplinas. Paterson limitou-se a visitar mais umas quatro es¬ colas. Conhecel-as todas era-lhe impossível. A capital tinha uma população de quinhentos mil habitantes e para cada cem havia uma escola. Em todo o Reino, não existia um só analphabeto. Nos primeiros tempos da vida daquelle povo, de¬ pois da decadência, as leis eram severíssimas, os crimes graves punidos com a morte. A forca trabalhava mas não corrigia. O ensino era obrigatorio. O pae que não mandasse o filho á escola era castigado com multas pesa¬ das e na reincidência com prisão. Mas o rigor das leis foi enfraquecendo, á medida que o povo se foi revigorando, adquirindo a saude do corpo e do espirito deteriorada pelo álcool, pela syphi- lis e pelo tabaco. Desappareceram, afinal, por desneces¬ sárias. A instrucção publica não tinha fiscaes. Os inspecto- res escolares, simples figuras decorativas dos paizes atraza- dos, não eram conhecidos. O professor, conscio de suas obrigações, de suas responsabilidades, não precisava que o vigiassem obrigando-o a cumprir os seus deveres. o reino pe kiaTo — 4 50 Rodotpho Theophi Lo Paterson visitou uma das cinco escolas normaes da capital. A vista do prédio impressionou-o agradavelmente. Não era uma pesada massa de alvenaria sem arte e sem hygiene que tinha deante dos olhos, mas uma construcção leve, cercada de jardins, um pavimento terreo de grandes dimensões dividido em espaçosos salões. Em cada compar¬ timento ensinava-se uma disciplina. O programma era va¬ riado. Exigia do professor uma cultura muito superior á que precisava para ensinar, porque ali se preparavam não só as mulheres que se destinavam ao magistério como as outras da capital. Não havia estabelecimentos particulares de instrucção. O programma constava de francez, inglez, allemão, italiano, geographia geral, historia universal, histo¬ ria do reino de Kiato, elementos de physica e chimica» historia natural, pedagogia, hygiene escolar e domestica, rudimentos de toxicologia, musica, desenho, mathematica elementar, trabalhos de agulha, arte culinaria, arte de en¬ gomar. A matricula era de cem alumnos, interdicta aos ho¬ mens. Paterson começou assistindo á aula de pedagogia. A professora fazia uma preleção em linguagem singela e cla¬ ra sobre «o methodo intuitivo», mostrando a sua vantagem sobre os outros. Era a percepção sem o raciocínio. O botânico, exemplificava, gastaria tempo e palavras para fazer o alumno comprehender, e mal, a estructura de um tecido vegetal. Si em vez, porém, do raciocínio preferisse a intuição, levaria o tecido ao microscopio e o alumno veria e comprehenderia sem raciocinar o que é um tecido e a for¬ ma das células. A professora dissertou ainda muito tempo sobre o assumpto. Depois, occupou-se dos deveres do preceptor para O reino de K i a t o 51 com os seus discípulos, a brandura, o carinho com que de¬ via tratal-os. Relembrou a decadência, o tempo em que as creanças, portadoras de taras geradas pelo álcool, eram por isso insubmissas, viciosas, e que, para modificar-lhes as in¬ clinações, o professor lhes inflingia castigos corporaes, ti¬ nha a palmatória e o chicote sobre a mesa, mas tudo sem resultado apreciável. O menino que agora ensinavam a ler era docil, obe¬ diente, cumpridor de seus deveres. Os cuidados do mestre não deviam ser somente velar pela saude da creança na escola, mas vigiar também pela saude do espirito. O cum¬ primento do dever e o respeito ao direito dos outros deviam repetir á creança todos os dias, em peque¬ nas historias ao alcance de sua intelligencia e idade. Acabada a lição, Paterson sahiu e foi assistir, em um salão contíguo, á aula de hygiene. Uma formosa mulher de vinte e tantos annos falava a suas discípulas, algumas dezenas de meninas de 12 a 15 annos: — O aceio do corpo, como um dos maiores facto- res da saude devia ser lembrado todos os dias para que não o esquecessem. O nosso organismo é como o da plan¬ ta, precisa de ar e de luz. Os indivíduos que vivem em at- mosphera que se não renova perdem a saude, como as plantas que vivem na sombra se estiolam. O aceio do cor¬ po, — trazer a pelle sempre limpa, os poros abertos para ajudarem ao pulmão a oxigenar o sangue — é um dos pre¬ ceitos da sã hygiene. Os poros da pelle representam um papel importante na economia, como os estomatos no or¬ ganismo vegetal. São milhares de pequenos orifícios que dão entrada ao ar e sahida ao suor, ajudando os rins a pu- 52 Rodolpho Theophi lo rificarem o sangue, mantendo a transpiração, que por sua vez conserva a temperatura e a energia nervosa. Si com uma cantada impermeável obstruirmos os poros da pelle, a vida cessará. Uma das partes do corpo que deve estar sempre limpa são as mãos, que precisam ser lavadas mui¬ tas vezes ao dia, principalmente antes das refeições e ao dei¬ tar. Nunca devemos passar as mãos nos lábios, nos olhos ou no nariz. Os dedos, embora limpos, podem levar germens maléficos que pululam no ar. As unhas, estes vi¬ veiros de microbios, devem ser tratadas com rigoroso aceio. Sempre aparadas, sempre cuidadas, para que não se acu¬ mule nellas a menor partícula de sujidade. A policia da bocca deve ser tão tão rigorosa quanto a das mãos. Na bocca vivem microbios de diversas moléstias que esperam somente occasião azada para agredirem o organismo. As¬ sim, ella deve ser lavada pela manhã, depois da refeições e ao deitar. A vossas discípulas repeti sempre que a sobrie¬ dade traz a saude do corpo e prolonga a vida. Que os ali¬ mentos devem ser muito bem triturados pela mastigação, para depois serem ingeridos. Os sevandigos, as pragas são vehiculos de moléstias que se transmittem ao homem. No tempo da decadência, o Reino era infestado por toda a casta de parasitas damninhos: moscas, pulgas, percevejos, mosquitos, os quaes a hygiene acabou por completo. Si algum dia sahirdes de vossa patria ponde voz de guarda contra os sevandigos, mormente a mosca, vehiculo de germens de differentes moléstias. Sois virgens hoje e amanhã sereis mãis; cumpríreis no futuro a missão mais sublime da mulher — a materni¬ dade. — Incuti em vossos filhos desde a mais tenra edade o habito do aceio. Aleitae-os vós mesmas, porque a alei- O reino de K i a t o 53 tação artificial tem morto mais creanças do que todas as mo¬ léstias reunidas. Nos paizes em decadência, as mulheres são mães so¬ mente porque têm filhos. Para não envelhecerem depressa, para não se privarem dos bailes, dos theatros, entregam os filhos a amas que os aleitam, os cuidam, transmittindo aos pequeninos as suas diatheses. Outras, nem isto fazem: ali¬ mentam as creanças com leite de animaes. Não esqueçais que a primeira infancia precisa de cuidados, de carinhos que só as mãis podem dar... Paterson ouvia surpreso as palavras da professora. Dizia para comsigo: em outras terras, para as mãis civilisadas do mundo, seria um absurdo as palavras que acabara de ouvir. Qual a professora que falaria a virgens em materni¬ dade?! Temeria offender-lhes a pudicícia, como si não fosse pura ficção nos paizes civilisados, onde o luxo, a moda deturparam os costumes, a moral. Uma virgem em França, por exemplo, não queria que se lhe dissesse que ha¬ via de ser mãi, que lhe ensinassem a crear os filhos quan¬ do os tivesse, porque lhe offenderiam o pudor. No entanto, a sua pudicícia não se revoltava quando expunha o corpo meio nú aos olhares caprinos dos homens!... Os decotes escandalosos que descobriam a raiz dos seios, os vestidos sem mangas, que deixavam ver os pellos da axilla, as saias que mostravam as pernas até os joelhos, tão justas, tão agarradas ao corpo que deixavam bem desenhadas as co¬ xas e os quadris, não lhes of fendiam o pudor ?! E’ que a virgindade para essas meninas era só physica e não moral. Paterson, ao sahir, avistou uma dependencia do edifí¬ cio que lhe pareceu uma cosinha. Dirigiu-se para lá. Ef- 54 Rodolpho Theophilo fectivameníe, a arte culinaria fazia parte das disciplinas da escola. Uma duzia de alumnas, ao lado da professora, de gorro e avental, trabalhava preparando comidas. Paterson ficou maravilhado do aceio da cosinha. O espaçoso pavilhão era ladrilhado de mármore. Nas columnas de ferro que o sustentavam, enredavam-se viren¬ tes trepadeiras mosqueadas de pequeninas corollas multico¬ res, das quaes se evolavam capitosos odores. Aquella gente não comprehendia a vida sem flores e sem perfumes. Os fogões eram eléctricos e os utensílios todos de alumínio. Paterson observou que não havia carne. Em com¬ pensação, um sem numero de variedades de pratos de hor¬ taliças e alguns de peixes. A arte do pastelista chegára ali a perfeição. Um pouco adeante, encontrou outro pavilhão; era a lavanderia. Um grupo de moças, com a professora, lavava roupas em pequenos tanques de mármore. Eram quadrilᬠteros de profundidade de 20 centímetros, tendo em uma das extremidades um pequeno plano inclinado e na outra um escoadouro para as aguas, escoadouro que dava para um deposito subterrâneo. Pouco adeante, uma lavanderia mechanica, movida pela electricidade, cuja perfeição era admiravel. A roupa en¬ trava suja para a machina e em pouco tempo, sahia la¬ vada, dobrada e cheirosa. A electricidade faz destes milagres, ainda mais numa terra em que era a força motora por excellencia, da qual ti¬ nham tirado préstimos ignorados dos paizes mais civi- lisados. O reino de K i a t o 55 Visinho ao pavilhão da lavanderia, o da engomma- gem. Paterson foi apreciar de perfo o prodigioso invento. Uma machina, servida por força electrica, recebia a roupa lavada e minutos depois a entregava perfeitamente engommáda, lustrosa, as aberturas das camisas como se esti¬ vessem envernisadas. Uma duzia de normalistas e a professora trabalha¬ vam ali. Havia também uma engommadeira manual. Numa mesa estreita e comprida, de mármore, duas alumnas engommavam com ferros especiaes, differentes dos ferros usados em todo o mundo e aquecidos pela electri¬ cidade. A roupa, depois de aquecida, recebia um pó que a engommadeira fazia cahir de um pulverisador em chuva fi¬ níssima e depois o calor do ferro o ia espalhando uniforme¬ mente até que a roupa espelhasse de brunida. Paterson cada vez mais se convencia de que naquel- la gente havia uma comprehensão nitida e precisa da vida. Deixou o pavilhão e entrou de novo no edifício, para as¬ sistir á aula de hygiene. A professora explicava em lin¬ guagem clara e concisa como se devia conservar a saude do corpo, o papel que representa a agua na vida do or¬ ganismo; impura, é factor de muitas enfermidades. Fez ver o pouco valor da medicina e o grande da hygiene. E' melhor prevenir a doença do que cural-a. Encareceu a sobriedade, como condição especial da saude. Citou o sabio adagio — «O homem abre a cova com os dentes». Referiu-se ao tempo da decadência, em que havia um medico em cada quarteirão e uma pharmacia em cada can¬ to. A media da vida era de quarenta annos! O homem 56 Rodolpho Theophilo renasceu no dia em que se expurgou das taras, das dia- theses maléficas, que o infeccionavam. Os habitantes do Kiato eram felizes porque tinham o corpo são, e quem o tem são tem também o espirito. A sobriedade é o apanagio da fortaleza de animo. Encerrou a prelecção com um voto de gratidão á memória de Pan- taleão I, espirito illuminado que legou aos compatriotas a unica felicidade na vida — «a fraternidade humana». Paterson sahiu satisfeito com a lição. Ouvira pala¬ vras que se não perdiam. Deixando a Escola Normal, visitou os Lyceus de Humanidades e o de Artes e Officios. O que mais o enchia de admiração era a com¬ petência do professorado. Eram sábios, não apenas pro¬ fessores. Dirigiu-se á Universidade, um grande edifício iso¬ lado no meio de jardins. Cada disciplina tinha um salão, com o gabinete ao lado. A tudo presidia a ordem e o aceio. A primeira au¬ la que encontrou funccionando foi a de bacteriologia. A prelecção do mestre era sobre — «o impulso que soffreu a sciencia com a descoberta do infinitamente pequeno». Falou da importância do acaso nas descobertas. Lem¬ brou as palavras de Pasteur que dizia: — «o acaso só favorece aos espíritos cultos e observadores». Como foi descoberto o telegrapho sinão pelo acaso ? Derested, physico dinamarquez, observou um phenomeno que, a um espirito que não fosse preparado, teria passado despercebido. Viu que um fio de cobre atravessado por uma corrente electrica desviava de sua posição a agulha magnética. Estava descoberto o telegrapho electrico... O reino de Kia t o 57 Lembrou como foram descobertas as leis do pendu¬ lo. Milhares de homens tinham visto na cathedral de Pisa a oscillação da lampada suspensa do tecto, mas a nenhum impressionára o facto. Foi preciso que um espirito culto e observador como Galileu visse o phenomeno para delle tirar grande proveito para a sciencia e para as artes. Uns vinte alumnos ouviam o professor com grande attenção. Não se ouvia outro som sinão o das palavras do mestre. A lição era sobre o microbio do typho. Não haven¬ do moléstia em Kiato, a Universidade recebia preparações do estrangeiro. O typho havia sido uma endemia no Reino, mas foi se extinguindo aos poucos, á medida que o homem ad- quiria o vigor perdido. A phagocythose é imperfeita nos indivíduos minados pelo álcool, pela syphilis, porque os phagocythos são egual- mente enfermos. Nem sempre a lucta dos que fazem a defeza organica é vencedora; os invasores ás vezes triumpham e o organismo morre envenenado pelas toxinas produzidas pelo inimigo, dizia o professor. A phagocythose no organismo são é de uma resis¬ tência assombrosa. Só assim se explica o caso de indiví¬ duos escaparem de moléstias contagiosas em um meio contaminado, sem outra immunidade a não ser a própria defeza organica. Não ha indivíduo refractario á moléstia, nem mes¬ mo temporariamente. O estado de receptividade ou não, de uma doença infecciosa, é somente devido á força dos phagocythos. E vencem o mais poderoso inimigo, que a prova está no povoamento da terra quando a medicina e a 58 Rodolpho Theophi lo hygiene não existiam. Os primeiros homens não adoeciam graças á sua poderosa defeza organica. Os microbios pathogenos sempre existiram; não foi a civilisação que os gerou. Isso prova a geographia das moléstias. A peste bubônica é filha do Ganges, como a fe¬ bre amarella é das Antilhas. A degeneração da especie humana começou no dia em que Noé se embriagou pela primeira vez. A maldição que o patriarcha lançou sobre seu filho Chain por termo- fado de sua nudez é symbolo do Livro Santo. Noé amal¬ diçoou aos que se embriagassem e ás suas gerações. Desde esse tempo a phagocythose começou a perder a energia. O professor, depois destas considerações, começou a explicar theoricamente a vida, os costumes, a resistência, e como penetra no organismo humano o baccilo de Erberth. Seguiu-se depois o estudo pratico. Levantou-se e chegou ao microscopio. Paterson pasmou quando descobriram o instru¬ mento. Nunca vira um de egual poder nem tão aperfeiçoa¬ do. Lima monera ficaria do tamanho de uma mosca e illumi- nada!! O professor explicou detidamente a technica do mi¬ croscopio; depois, collocou a preparação e observando o campo viu, com o augmento de cinco mil diâmetros, os mi¬ crobios evoluindo. Deixou o instrumento para ser substituído por um alumno. Emquanto este applicava a vista á lente ocular, o professor falava sobre a forma do microbio e mandava que fosse dizendo o que ia observando. E assim se succederam, até o ultimo da turma. O reino de K i a t o 59 Acabada a lição, Paterson entrou em outro salão: a aula de pathologia interna. O professor dissertava sobre a cyrrhose do figado, moléstia muito commum em todo o Reino no tempo em que se usavam bebidas alcoólicas. Ha duzentos annos, po¬ der-se-ia fazer um estudo pratico desta enfermidade. Mas, hoje, na falta de doentes, limitava-se a estudar a pathoge- nia da moléstia, os seus symptomas, histologia, os meios de diagnostical-a. A pathologia interna não podia ser estu¬ dada theoricamente. Só á cabeceira do doente o alumno comprehenderia bem a explicação do mestre. A sciencia havia progredido nestes últimos tempos. A descoberta do raio X foi uma grande conquista. Sem o seu auxilio, como diagnosticar um neoplasma do tubo digestivo, um aneurisma ainda em começo, ou qualquer outra anormalidade do organismo, os diversos estados mór¬ bidos sem symptomas pathognomonicos, sem syndromas que orientem o medico, que o levem a um diagnostico certo ? Proferidas as ultimas palavras, o professor convidou os discípulos a acompanharem-no ao gabinete. Passaram do salão grande a um contíguo, de meno¬ res dimensões. Grande foi a admiração de Paterson. Muitas vitrinas de vidro, perfeitamente limpas, en¬ costadas ás paredes, deixavam ver preparações de cera re¬ presentando diversos estados pathologicos. No centro da sala, uma grande mesa, sobre a qual estava um manequim humano de perfeição incrível. Aberto o thorax e o abdômen, o tronco finalmente, pelo lado anterior appareceram as vísceras do tamanho na- 60 Rodolpho Theophilo tural, coloridas ao vivo, podendo-se abiil-as e fazer o seu estudo anatomico. O professor approximou-se. Cercaram-no os discípulos. Uma vez descoberto o hy- pocondrio direito, mostrou o figado cyrrlioso. Dissertou sobre o estado pathologico da viscera, as causas daquelle estado, as desordens do organismo produzidas pelo péssi¬ mo funccionamento da glandula. Chamou a attenção dos alumnos para a magreza, o fácies de enfermo, para o seu crescido e disforme abdômen. Acabada a prelecção, dirigiu-se a um compartimento contiguo, seguido dos alumnos: era a sala do raio X. Ao lado do apparelho, fez a apologia daquelle gran¬ de invento, que marcou uma nova era na vida da sciencia medica. Depois fez funccionar o instrumento. Accesos os fo¬ cos eléctricos, que se reflectiam em um sem numero de espelhos concavos e convexos, a claridade excedeu á do sol. Convidado um dos discípulos a entrar naquelle banho de luz, foi envolvido pela onda luminosa e o seu corpo tor¬ nou-se diaphano, transparente. Professor e alumnos, armados de oculos negros, ob¬ servavam o funccionamento daquelle organismo, surpre- hendido em flagrante, como si estivessem vendo trabalhar a machina de um relogio. Viam claramente circular o san¬ gue, desde o coração aos capilares dos membros, depois voltar ao coração. Viam como funccionavam os pulmões, as vesículas enchendo-se de ar; o trabalho da digestão e das glandulas que o auxiliavam; as funcções do appendice, segregando um liquido que o humedecia; as contracções peristalticas, emfim, tinham á vista desvendada a physiolo- gia humana em todos os seus detalhes. Para avaliarem o funccionamento do engenhoso ap- O reino de K i a t o 61 parelho da epiglote, o professor deu ao alumno um copo d’agua. A cada gole que ingeria, a cada deglutição, viam cla¬ ramente a epiglote abaixar-se e fechar hermeticamente a glote, impedindo assim o liquido de entrar na trachéa. O professor findou a lição lançando um anathema sobre o uso das bebidas alcoólicas. Paterson voltou ao hotel, porque se approximava a hora do almoço. CAPITULO VII AGRONOMIA O povo de Kiato, depois da decadência, tornou-se agronomaniaco. A terra daria ao homem a vida do corpo e a paz do espirito. A humanidade voltaria ás primeiras idades, quando o genero humano, dividido em pequenos núcleos, tirava da terra o seu sustento e reinara a fraternidade humana. O egoismo e a ambição, os maiores factores da per¬ versão moral, não mais existiam porque o homem tinha o cor¬ po são. Foi o egoismo que armou o braço do primeiro cri¬ minoso. O sangue de um innocente manchou a terra, ain¬ da virgem, ainda pura, e desde esse dia a sua fertilidade, que era espontânea e assombrosa, desappareceu, só produ¬ zindo fructos quando regada pelo suor do homem. Os habitantes de Kiato haviam conquistado a sobe¬ rania de sua liberdade depois de mais de um século de reacção contra os usos e costumes resultantes da intoxica¬ ção alcoolica e syphilitica. Restaurada a saude e a moral, começou uma vida nova, o socialismo emfim. As classes armadas não tendo mais razão de ser, fo¬ ram dissolvidas. A marinha de guerra ficou reduzida a pou¬ cos vasos, para o policiamento das costas. O serviço mili- 0 reino de K i a i o 65 Paterson commovia-se deante de tão edificante es¬ pectáculo. Ali não se notavam castas, nem híerarchias. Dois filhos do rei, um de dezoito, outro de vinte annos, de blusa e gorro, guiavam as charruas, ao lado de seus súbditos. Era a glorificação da terra pelo trabalho, a terra que, creada para todos, o egoismo havia conquistado, op- pondo o direito da força á força do direito. A Biblia, no seu rebuscado symbolismo, de cuja in¬ terpretação se originou o schisma.é a historia das primei¬ ras agremiações humanas. Abel é um symbolo, como o matador Caim. Caim é a encarnação do egoismo. O ho¬ mem, embrutecido pelo álcool, apossou-se da terra, divi¬ diu-a, retalhou-a em lotes, não cabendo aos fracos uma nesga sequer. Paterson assistia, naquelle rincão affastado do mun¬ do, á restituição da terra aos seus primitivos donos, isto é, a todo o genero humano. O senhorio territorial, figura exe¬ cranda das sociedades corrompidas, havia desapparecido com a regeneração do homem. A terra do Reino fora di¬ vidida em hectares e distribuída entre os que queriam la¬ vrar, de accordo com o numero de pessoas da familia. Paterson sahiu a percorrer o campo. As especies vegetaes pareciam outras: acompanhavam o vigor, a saude do cultivador. Tinha á vista um trigal, que o encantava pelo luxo da vegetação. Não vira jamais verde tão vivo nem amarello tão louro nas espigas. Os grãos eram enor¬ mes, não havia uma semente chocha, mal vingada. Passou ao pomar. Dispunham-se as arvores, em ala¬ medas, tão symetricamente plantadas e cuidadas, que se O REINO DE Kl ATO — 5 66 Rodolpho Theophilo via a rua vegetal de uma extremidade a outra. Fructas pendiam dos galhos, perfumando o ambiente. Um pouco adeante, a grande horta, alguns hectares de terreno cobertos por um extenso tapete de verduras. Havia toda a casta de hortaliças. A variedade de couves era extraordinária: desde a couve anã, que crescia vinte centímetros, até á couve gigante que media um metro de altura... E também alfaces, rabanetes, cenouras, pepinos, aspargos, repolhos, um sem numero de variedades. Pater- son conhecia o sabor e a maciez das hortaliças de Kiato. Nunca havia comido couves nem alfaces tão saborosas e tenras. Pela cultura e pela selecção, conseguia-se ali aper¬ feiçoar as variedades inferiores. Passou ao jardim. Si a horta era uma belleza, o jar¬ dim era um primor. Emérito botânico, Paterson estava en¬ cantado. Não era a grande quantidade de especies o que admirava, eram as modificações, conseguidas em especies delle conhecidas. Roseira que noutra parte dava rosas de pétalas cor de vinho, dava-as ali de corollas coloridas, com gradações de tons até o rosicler. Farto de tantas bellezas, frenetico admirador daquel- la gente, que representava a perfeição humana, Paterson voltou ao hotel. CAPITULO VIII O IMPOSTO E A MORTE O transatlântico em que aportara a Kiato já tinha reparadas as avarias e estava prompto aproseguir a viagem. King, irresoluto, não sabia si partiria ou si ficaria concluindo o estudo d’aquella gente. Havia corrido toda a Europa, viajado pelas duas Américas, visto povos exquisi- tos, mas nenhum se assemelhava ao kiatense. Na vespera da sahidado «The Queen», ainda indeci¬ so, conversava pela manhã com Robert. Trocaram idéas e tiveram confidencias como ainda não haviam tido. O hoteleiro estava lá havia quinze annos. O im¬ previsto tinha-o deixado entre aquelle grande povo. Viera a Kiato, num navio inglez, comprar porcelanas e sedas para revender em Londres. Hospedara-se naquelle mesmo hotel, então propriedade de um francez, Paul Bertin. Dois dias depois, um marinheiro do navio em que viajava, veio a terra, embriagado. O castigo não não se fez esperar; preso e enviado para bordo, foi o navio inti¬ mado, por um dos vasos de guerra da marinha nacional, a suspender ferros e deixar immediatamente as aguas do Reino. 68 Rodolpho Theophilo - Ignorei o incidente até a manhã do dia seguinte, quando o jornal noticiou o facto, porém sem commenta- rios dizia o hoteleiro. Resignei-me, porém, a esperar um navio que me conduzisse á patria. E a convivência com es¬ ta gente me affeiçoou a esta terra. Um acontecimento, também imprevisto, fez-me de vez ficar residindo aqui: a morte de Paul Bertin. Nos primeiros tempos tive saudades de Londres, minha terra natal, dos amigos e dos poucos parentes que havia deixado, mas, a fortaleza desta gente, este meio são, parece que me tonificaram e impediram que fosse atacado pela nostalgia. Eu era novo, tinha quinze annos menos do que hoje. Pensei em casar, unir-me a uma d’essas raparigas, cujo corpo é são, cujo espirito é forte, não combalido pela civilisação doentia das outras partes do mundo. Já tinha de olho uma rapariga, mas esta não me prestava attenção: passava despercebido aos seus olhos como si fosse um animal de outra especie... Acariciei tal idéa até o dia em que melhor conheci o codigo de Kiato. Soube, nessa occasião, que, como medida prophy- lactica, era aqui prohibido o casamento com estrangeiros. Custára-lhes séculos de trabalhos o expurgarem-se d’aquel- las hediondas taras, d^quellas malditas diatheses, que, no transcorrer do tempo, vinham corrompendo gerações e ge¬ rações. E não haviam de permittir que voltassem a imperar, por via da união de organismos sãos a organismos portado¬ res do mal, — Tem razão, disse Paterson. Como se vive aqui, pouco mais ou menos sei; porém, como se morre ? , — O kiatense não morre: acaba-se. A medai da vida é de cem annos. O organismo vai-se gastando paula- O reino de K i a t o 69 tinamente, como as peças de uma machina, até que, de todo gasto, pára, deixa de funccionar; não, porém, por lhe faltar a força motora, o sopro vital, mas pelos orgãos que, de usados, já não podem funccionar. O kiatense tem uma idéa nitida e perfeita da morte. Considera-a um facto na¬ tural e necessário; porém a morte a termo. A vida, che¬ gando ao seu limite, si possivel fôra prolongal-a, seria uma grande infelicidade. A senilidade, com a sua companheira demencia, é profundamente horrível. Tanto tem de desna¬ turai o homem morrer em plena mocidade, como de natu¬ ral acabar-se quando o organismo se gastou percorrendo todo o cyclo da vida. Nos paizes de homens embrutecidos pelo álcool, apodrecidos pela syphilis, a morte é um phan- tasma horrível, aterrador, porque precoce, e portanto des¬ naturai. Não é mais do que um suicidio. Os obitos aqui são raros e o modo por que são feitos os enterros dá uma idéa perfeita do que esta gente pensa sobre homenagem aos mortos e o além tumulo. Eu estava aqui, havia mezes, quando se deu o aca¬ bamento de um centenário. Passava o enterro: um coche fúnebre puxado por dois cavallos, sem crepe e sem pen- nachos, preto, completamente preto, sem um galão de pra¬ ta ou ouro, sem uma corôa, seguido por um automovel com seis homens velhos, filhos e netos do morto, como depois soube. Estranhei que a força que movia o coche fosse animal e não electrica; soube mais tarde que esta excepção era prova de respeito aos mortos. Tomei um auto e segui o enterro á distancia. O percurso até o cemiterio, fora da cidade, fez-se sem attra- hir a attenção do publico. Os transeuntes não paravam, nem tão pouco se descobriam. As janellas não se enche- 70 Rodolpho Theophilo ram de curiosos, de mulheres desoccupadas, que criticassem a pobreza do caixão ou elogiassem sua riqueza. Era aqui uma cousa naturalíssima o homem acabar-se quando não podia mais viver pelo gastamento de seus orgãos. No cemiterio, foi grande a minha admiração. A ci¬ dade dos mortos, dividida como a dos vivos em dois bair¬ ros: o antigo e o moderno. Naquelle, viam-se provas sig¬ nificativas da vida d’outros tempos: os grandes e opulen¬ tos mausoleos. A vaidade humana estava ali muito bem representada e muito bem vivida a illusão do orgulho, julgando perpetuar-se na memória dos posteros, com aquel- les epitaphios falsos, cada qual digno do respeito humano dos que os escreveram. O bairro moderno era a synthese do sentir do povo regenerado. Um campo vasio de lousas e de cruzes. Todos eram eguaes. A terra faria, sem conhecer hierarchias, a resurreição da carne, não, porém, como a interpretam os livros santos. Uma profunda cova foi aberta e o corpo desceu a occupar a sua quieta e derradeira morada. Extranhava que um povo tão adeantado não tivesse ainda adoptado a crema¬ ção. Mas, reflecti e achei razão. O fogo não restituiria á Natureza os corpos simples sem a combinação de alguns; ao passo que os infinitamen¬ te pequenos fariam a putrefação completa e perfeita, a re¬ surreição da carne, restituindo á Natureza elementos sim¬ ples, que entrariam na formação de outros corpos vegetaes ou animaes, conservando assim a eternidade da matéria. Fez-se a inhumação e os parentes do morto ali pre¬ sentes não derramaram uma lagrima, não tiveram um mus- culo no rosto que se crispasse de pezar. Chorar por que O reino de K i a t o 71 aquelle ser havia percorrido o cyclo de sua evolução na terra e agora entrava no grande nada de onde viera? Ti¬ nham todos as feições calmas, como espectadores de uma scena naturalissima. A imprensa noticiou a morte do cen¬ tenário como si fosse a sahida de um navio, sem dar pe- zames á familia, nem fez necrologio... Achei exquisita essa falta de consideração aos que partem para o desconhecido. Acostumado, nos outros paizes, especialmente nos de ori¬ gem latina, a ler na imprensa lamuriantes nenias, a des- cripção do enterro, a riqueza do caixão, o numero de co¬ roas com as suas inscripções, cada qual mais fementida, o acto da inhumação, os discursos á beira da cova e por cu¬ mulo de reportagem o nome de todas as pessoas que acompanhavam o defuncto, aquella sobriedade de homena¬ gens pareceu-me falta de respeito ao morto. Julguei que o preito de saudade á memória do ex- tincto fosse prestado na visita de cova. Enganei-me. Em Kiato, todos os cultos eram permittidos, mas não havia fer¬ vor religioso em nenhum. O povo preoccupava-se apenas com a saude do corpo e a hygiene do espirito, cumprindo religiosamente o decálogo. A’s praticas religiosas eram in- differentes, tanto que os officios divinos eram poucos fre¬ quentados.. A visita de cova constou de uma missa rezada sem eça e sem encommendação. As eças que, no tempo da de¬ cadência, haviam deslumbrado aquella sociedade corrompida, levando o exagero do luxo até na morte, haviam desappa- recido por completo. Que usança ridícula a do catafalco erguido no centro do templo, encimado por um feretro de papelão, coberto de veludo e ouro, cercado de centenas de tochas que ardem, espalhando naquelle ambiente fúnebre um cheiro de morte, e de cera branca fumegando!... 72 Rodolpho Theophilo William Robert, depois de ter dito ao patrício como era pago o direito á morte, passou a relatar como era pago o tributo á vida. O imposto em Kiato era taxado so¬ bre a renda do capital, mas sem fisco. No fim do anno, cada cidadão, julgando-re devedor ao Estado, sommava o que havia rendido a sua industria, o seu capital e deduzia a importância de vinte por cento para o erário pubiico. Do excedente, tirava ainda trinta por cento, que distribuía entre os que o haviam ajudado a ganhar aquella somma. Nos primeiros dez dias de janeiro, todos os annos, as portas do Thesouro da Nação estavam abertas para re¬ ceber o imposto. A Fazenda Publica não chamava por edi¬ tal os contribuintes ao cumprimento do dever. Todos sabiam que eram devedores e iam com a me¬ lhor vontade satisfazer seus compromissos. O erário publi¬ co, em vez de um sem numero de parasitas, tinha, apenas, dois empregados: um thezoureiro e um escripturario. O contribuinte apresentava ao escrevente uma guia, na qual declarava o rendimento que havia tido sua industria ou commercio, deduzida a porcentagem de 20 oio que entre¬ gava ao Thezouro Nacional. O escripturario transcrevia a guia, e escrevia no verso — lançada — e o contribuinte, por sua vez, a levava ao thezoureiro. Este a recebia, como tam¬ bém o dinheiro, que recolhia ao cofre —de ferro no tem¬ po da decadência, inútil agora, pois o furto havia desappa- recido. O fisco existe somente nos paizes interiores — dizia Robert. E’ uma figura que se individualisa muito nas so¬ ciedades corrompidas. O fiscal das rendas publicas é quasi sempre um parasita do erário. Mal pago pelo governo, fa¬ minto, sem os meios necessários para subsistir com a fa- O reino de K i a t o 73 milia, fareja as porcentagens das multas, impondo-as sem critério, como um animal esfomeado por um repasto. Sua fiscalisação não attinge aos grandes contrabandistas, aos furtadores do erário, porque estes são grandes senhores, que se banqueteam com os ministros... Paterson ouvia maravilhado a narrativa. Sentia-se re¬ viver. Aquelle ambiente, saturado de uma moral tão sã, o viver d’aquella gente, que havia realisado o ideal do ho¬ mem — a paz do espirito ao lado da saude do corpo, a vida sem dores emfim — prendiam-no a Kiato. Não foi a civilisação que corrompeu o homem, a sua vida em sociedade, mas os vicios que se desenvolve¬ ram com ella. E a prova estava na pureza de costumes daquella gente, duzentos annos depois de ter eliminado de seu seio o facto r de todos os vicios e da miséria humana. — Deixar Kiato — dizia Paterson a Robert — depois de ter vivido na mais liberal das republicas, onde o homem é feliz porque cumpre os seus deveres e respeita o direito dos outros homens, na terra em que o crime era o apa- nagio de seus habitantes e desappareceu por completo com a reforma radical de seus usos e costumes, deixar Kiato é-me impossível. Como viver em outra qualquer parte do mundo ? Os povos de outras latitudes têm a illusão de que são perfeitos, mas, comparados com este reino, são vis e miseráveis hottentotes. E Paterson resolveu ficar em Kiato. CAPITULO IX A CASA REAL C OMEÇAVA a nova estação. Quasi todas as manhãs chovia. Paterson não podia sahir e para matar o tempo conversava com o hoteleiro, ao qual muito se havia affeiçoado. William Robert ia-o instruindo na historia do povo kiatense, nos costumes, que tão bem conhecia. Contava a extranheza que lhe causára o viver da familia real. Acos¬ tumado a ver na pessoa de um rei um ser com alguma cousa de divino, com privilégios e regalias que tocavam á insania, pasmou ao conhecer a vida de Niel, rei de Kia- to. Tinha o titulo de rei, mas era o cidadão da mais libe¬ ral democracia. Havia quasi duzentos annos a dynastia de Kiato sof- frera um grande desastre. Reinava Pantaleão I, devasso e bêbado. Era casado, tinha filhos, entre os quaes uma rapa¬ riga de quinze annos, por quem tinha excessiva affeição. Uma de suas amantes, porém, parecia-se tanto com esta que se diriam irmãs gemeas. Enciumado, resolveu matal-a, a amasia. A’ tarde de um dia de grande bebedeira, estava o 16 Rodolpho Theophilo rei, allucinado, em completo delirio, na sala de armas, quando a filha amada passou. Em sua allucinação, confun¬ diu-a com a amasia. Armou-se de uma pistola, sahiu-Ihe na pista e pouco adeante matou-a, ecoando a detonação pelas dependencias do palacio. Em breve, o cadaver foi cer¬ cado pelafamilia, fâmulos e soldados. Pantaleão, fora de si, voltou á sala de armas, sen¬ tou-se, e o seu espirito ficou em completa anesthesia até o dia seguinte. Procurando-o, encontrou-o a rainha ainda com a arma homicida na mão, de todo estupidificado. Jul¬ gou que o seu pranto, a sua angustia, manifestada em fun¬ dos ais, em lamentações dolentes, acordassem aquella alma, chamassem-na á realidade da vida, mas illudiu-se. Em seu delirio, Pantaleão nada ouvia, nada comprehendia. Era um homem physicamente morto. Acordou pela manhã. O estado agudo havia desap- parecido, mas ficára-lhe, numa baralhada de pensamentos, lembrança muito vaga do crime, uma sombra meio es¬ maecida, que a memória no seu embotamento deixava de avivar. Ergueu-se o rei do leito, ainda cambaleante, vestido como o haviam deitado, e procurou os aposentos da rainha. O encontto foi um lance penoso. Elle ouvia, meio aparva¬ lhado, as recriminações da mulher, que torturada por aquel¬ la grande magua; relatava o desgraçado acontecimento, condemnando-o com toda a crueldade de um coração de mãe profundamente golpeado. Atordoado a principio, foi despertando, sentindo a consciência renascer, pondo-se em mais estreitas relações com o meio, percebendo melhor as imagens que lhe acudiam ao cerebro, até que a visão do crime se fez mais nitida e a lembrança do trágico aconte¬ cimento mais viva. 0 reino de Kiato 77 Pantaleão duvidou do que via dentro de si. Era tudo um pesadelo. Bem podia ser que ainda estivesse bêbado I... Comprehendeu a rainha que elle queria crer, mas hesitava. Pediu-lhe que a acompanhasse á camara ardente. O cadaver era a prova material do crime. A lembrança do assassinato foi-se-lhe avivando e mi¬ nutos depois aquelle espirito meio embrutecido pelo vicio era esmagado pela verdade. Acabrunhado, recolheu-se o rei aos seus aposentos. Só tinha socego quando dormia. O seu despertar era todos os dias o despertar do afflicto, uma angustia cruciante. O primeiro pensamento que lhe acudia ao cerebro era o assassinato da filha. E a tortura continua¬ va até á noite, quando, vencido pelo cançaço, já a desho- ras cahia num lethargo doentio. Assim foi semanas intei¬ ras. Causava dó sua figura. A tortura lhe havia macerado as feições, apagado o brilho dos olhos e, para completar a hediondez do rosto, a cabelleira e a barba hirsutas, que os dias de dor tinham embranquecido, emmolduravam-lhe o fácies livido, macilento como o de um morto. Fizeram-se funeraes com toda a pompa, consoante á posição da extincta e ao sabor dos preconceitos da socie¬ dade de então; mas, nelles, o rei não tomou parte. Segre¬ gou-se e segregado esteve, mesmo da própria familia, até ao dia em que se sentiu regenerado, purificado pelo re¬ morso. A dor havia resgatado o seu crime. Revivia, sahia da vasa immunda dos vicios em que se achava atolado ha¬ via muitos annos... Estava salvo. Cumpria-lhe salvar o povo. Era preciso aniquilar o factor de sua desgraça, da desgraça do genero humano — o álcool. Era-lhe preciso uma coragem sobre- humana, um valor de super-homem, para vencer tão gran¬ de inimigo. 78 Rodolpho Theophilo Meditou dias e dias. Acariciou a idéa de taxar com pesadíssimos impostos as bebidas alcoólicas. Reflectindo, viu que não daria o resultado desejado. O proletariado dei¬ xaria de beber, a burguezia beberia menos e os ricos, os millionarios fartar-se-iam. Era meia medida. Além d’isso, á sua morte, subiria ao throno um filho, que talvez acabasse o imposto. Havia outra hypothese, cuja realisação não era impossível. Uma Camara, composta em sua maioria de al- coolicos, podia supprimir a taxa ; uma Camara composta, em sua maioria, de venaes, podia vender-se aos grandes industriaes de bebidas alcoólicas e supprimir o imposto... A arvore devia ser arrancada com todas as radicel- las, para nunca mais viver. Aquelle homem, perdido pela cultura de todos os vicios, transfigurava-se. Parecia mais uma presdestinação do que uma regeneração. Traçada a sua linha de conducta, agiu, mas agiu firme, indomito, semes- morecimentos. Seu primeiro acto foi publicar uma mensa¬ gem aos seus súbditos. Nunca houve documento mais sin¬ cero. Fazia o seu exame de consciência em publico, accu- sava-se de enormes faltas, não procurando attenual-as, an¬ tes aggravando-as. Dizia que o remorso o havia purificado. Não se julgando de todo remido, entregava seu corpo e seu espirito á grande obra da regeneração de seu povo. Si fosse preciso, sacrificaria a vida na realisação do seu ideal. Seria inexorável para aquelles que se atravessassem no seu caminho. Preferia destruir o seu reino, innundal-o de sangue, para, de seus destroços, de suas cinzas, de seus escombros, reconstruil-o; e, então, a paz reinaria até a con- summação dos séculos. A mensagem atemorisou uma parte da população do reino, mas irritou a outra. Na dia seguinte á sua publica¬ ção, começou o saneamento moral da côrte. O reino de K i a t o 79 Os doze conselheiros de Estado foram exonerados por crapulas, deshonestos, e chamados para os lugares ho¬ mens virtuosos, não encontrados na nobreza, mas nas clas¬ ses populares. As damas de honor, verdadeiras messalinas, suas alcoviteiras, foram dispensadas e substituídas por ma> tronas respeitáveis. A’ demissão do conselho do Estado seguiu-se a do ministério e a dissolução do Parlamento. A reacção começou, forte e radical. Aquelles golpes amiudados e de chofre, de uma ousadia assombrosa, estu- pidificaram o povo. Bem razão frnha Machiavel, quando dizia que na therapeutica política dava excellentes resulta¬ dos o derramamento de sangue copioso, porém instantâneo. Uma parte das classes armadas revoltou-se, emquanto a ou¬ tra se conservou fiel ao rei. Os rebeldes foram batidos, os prisioneiros fuzilados, sem excepção de um só. O rei diri¬ giu em pessoa o movimento. Os nobres, os parentes da casa real, não mereceram indulto: morreram como rebeldes. Os preceitos de Machiavel davam resultado. O povo ficou em completa estagnação psychica, atordoado, depois de ter visto uma onda de sangue innundar a capital. O rei não descançava. Devia aproveitar o momento psychologico. Pu¬ blicou então um edito prohibindo, em todo o reino, a fa¬ bricação e o uso de bebidas alcoólicas, o plantio, manipu¬ lação e uso do tabaco, ficando marcado o prazo fatal de trin¬ ta dias, para desapparecerem de Kiato os vestigios de taes industrias. Os infractores seriam punidos summariamente com a morte. As leis existentes foram derrogadas. Pantaleão não era rei absoluto, era dictador, que não hesitava em prati¬ car a maior violência, comtanto que estivesse convencido de 80 Rodolpho Theophi lo que era para a salvação publica. De tão exagerado despo¬ tismo, nasceria a liberdade, a fraternisação dos homens. O contagio do pânico é fatal nas multidões. O medo havia contaminado todos os espi ritos, acovardando-os. O rei aterrava-os como um duende, o genio do mal, do ex¬ termínio. Findo o prazo para a extincçãodas industrias do álcool e do tabaco, Pantaleão sahiu em pessoa, acompa¬ nhado de um esquadrão de cavallaria, a syndicar de cum¬ primento do edito. Quasi todos os industriaes tinham-se submettido. Porém, que desagradavel impressão causava ver apparelhos de grande custo completamente destruídos! Nem uma gotta de bebida alcoolica havia nos depositos! Todos os toneis vasios! Na visinhança das fabricas, pare¬ cia haver corrido um regato de vinho e de whisky!... Os que julgavam escapar pelo subterfúgio, apanha¬ dos em delicto flagrante, foram, dentro mesmo das fabri¬ cas, cruelmente justiçados com todos os seus operários, Todos os instrumentos, todos os apparelhos foram destruí¬ dos pelo fogo, o que lhe augmentou, ao rei, a fama de perverso, tyranno e sanguinário. Dez annos levou a collocar, sobre as ruinas do an¬ tigo, desmoronado até ás fundações, por toda a casta de vícios, as primeiras pedras do novo edificio social. Promulgou leis sabias, severíssimas. O ferro em brasa com que ia cauterisar as chagas daquella sociedade, arre¬ feceria á medida que se regenerassem os costumes. Tempo viria em que este povo resurgiria, dando lições de moral e de civismo aos outros povos da terra. A base da saude do espirito é a saude do corpo. Juvenal já dizia: «Mens sana in corporesano». Pensando assim, consagrava o rei uma parte de seu esforço á saude publica. 0 reino de K i a i o St Na população do reino, havia uma parte estropiada pela diathese syphilitica, lepra, tuberculose, cancro, e as ne- vroses em suas múltiplas e diversas modalidades. Os des¬ graçados, que apodreciam em vida, iam-se perpetuando, gerando novos desgraçados, condemnados a uma vida de padecimentos, sem esperança de salvação. Impressionou-se Pantaleão com o viver d’esses indivíduos, inúteis e ao mes¬ mo tempo nocivos, dando-se logo a estudar os meios' de estancar o mal. Um dilemma se lhe antolhou : supprimil-os ou hospitalisal-os ? Matal-os, acto de misericórdia, mas innominavel; segregal-os, mesmo sob a mais severa das vigilâncias, inú¬ til para lhes evitar a reproducção. O instincto sexual diffi- cilmente .se refreia. Sómente o pudor, a moral, podem contel-o. Mas, nem sempre. Como curar esses seres que tamanho mal causavam ao genero humano ? Deixal-os á satisfacção do sentido ge¬ nésico, esterilisando-lhes a semente humana — era resolver o problema. Reuniu então os mais sábios médicos do reino, para lhes pedir conselho sobre o caso. O mais velho dos escu¬ lápios respondeu que, estudando havia muitos annos o as¬ sumpto, pensava ter descoberto a esterilisação da semente humana nos varões e nas femeas, sem extracção dos or- gãos que geram os spermatozoides e os ovários. Bastaria uma injecção, somente uma, de um liquido extrahido de orgãos masculinos. Resolvida, assim, a questão, em relação ás enfermi¬ dades hereditárias, transmissíveis de paes a filhos, os por¬ tadores do mal seriam hospitalisados, e por prudência es- terilisados. O REINO DE KIATO — 6 82 Rodolpho Theophilo A lepra era uma das moléstias que grassavam em to¬ do o Reino. Para evitar o contagio, segregaram-se estes desgraçados em uma ilha, dando-se-lhes meios de tirar da terra a sua subsistência. Todos, homens e mulheres, eram esterilisados, enviados os novos casos para o leprosario. Não se abria excepção para pessoa alguma. E a lepra foi desapparecendo paulatinamente, até se extinguir de todo, em quarenta annos. O casamento tornou-se obrigatorio a todo o cidadão, attingida a idade de vinte e cinco annos. Era, porém, ne¬ cessário um rigoroso exame de saude nos noivos e nos seus ascendentes mais proximos. Um tuberculoso, um epi¬ léptico, um leproso, um canceroso, não podiam casar-se, assim como descendentes de alcoolicos, de pais ou de avós soffrendo d^quellas enfermidades. A’ mulher, antes de vin¬ te annos e depois de trinta e cinco, o casamento era-lhe interdicto. O celibatário consideravam-no nocivo á socie* dade. Pantaleão ainda viveu e reinou trinta annos após a regeneração. Succedeu-lhe um filho do mesmo nome. Antes de morrer, chamou-o e contou-lhe, em eloquente synthese, a historia de sua vida. Dos homens o mais perdido, dos reis o mais nefasto, purificara-o a dor. Deixava o povo em franca via de regeneração. Que continuasse a sua obra respeitando assim os seus últimos desejos. E expirou. Pantaleão II, portador apenas de taras e diatheses, her¬ dadas e não adquiridas, iniciou seu reinado nos moldes do seu antecessor. Faltava proceder á prophylaxia da syphi” lis, ou antes ao seu extermínio como o segundo inimigo da humanidade. O reino de K i a t o 83 Esterilisados os incuráveis, exercida rigorosa fiscali- sação sobre as mulheres publicas, decretado o casamento obrigatorio, tratados os enfermos curáveis, pela therapeu- tica de Kiato, mais adeantada que a dos outros paizes, a syphilis havia de desapparecer dentro de um século. Pantaleão II foi digno successor de Pantaleão I. Rei¬ nado muito menos tempestuoso do que o de seu pae, pois as reformas mais importantes estavam feitas, continua¬ va, porém, a obra de saneamento moral e physico, aper¬ feiçoando-se com o progresso, o evoluir da sciencia. O facto mais importante de seu reinado foi o combate á sy¬ philis. Os que velavam pela saude publica, obsecados, viam em toda a parte o virus do mortífero morbus, e procura, vam evital-o, tomando medidas de prophylaxia tão severas que tocavam ao exaggero. A vida das desgraçadas meretrizes tornou-se uma tortura. Eram examinadas tres vezes por semana e inter- dictas quasi sempre. O casamento obrigatorio diminuiu-lhes a freguezia. Para não morrerem de fome, fecharam as por¬ tas. As festas de núpcias, que no Kiato antigo se reves¬ tiam de gfande pompa, perdiam o brilho á medida que o povo se purificava. O casamento se reduzia ao acto religioso e ao contracto civil, feitos com toda a simplicidade, sem corbe- lha nem fuga dos noivos... Annos depois, quando aquella gente se havia de todo purificado, o contracto civil desappareceu, ficando apenas o acto religioso, para dar tons de legitimidade á união. Ainda havia, naquella gente, uns longes de respeito pelas leis da igreja e, embora levando uma vida de santidade, não se lhe tinha o espirito libertado de preconceitos arrai- 84 Rodolpho Th eophilo gados num século de decadência. Nalgumas famílias, já o acto consistia numa cerimonia muito simples, mas solem- ne: reunida toda a família, faziam os noivos, perante ella, o voto de se unirem para sempre, na vida e na morte. E após, retiravam-se para a casa onde iam viver. Para que contracto, si a palavra do cidadão de Kiato valia uma es- criptura ? Extincto o Forum, desappareceram com elle todas as figuras da justiça, desde o ministro do Tribunal Supremo té o meirinho. A familia tornou-se estado autonomo, den¬ tro do proprio Estado. As heranças eram repartidas á re¬ velia da justiça. Não existindo mais egoismo, máximo fac- tor da desintelligencia entre os homens, o que poderia per¬ turbar a paz, o socego do lar ? Para que serve a religião si não para obrigar o ho¬ mem ao cumprimento do dever, a respeitar o direito de seus semelhantes — «ama ao teu Deus e ao teu pro- ximo como a ti mesmo» ? Em Kiato, cumprido fiel¬ mente o decálogo, as praticas religiosas não eram mais precisas. Desappareceram. CAPITULO X REORGANIZAÇÃO DO REINO A reorganização política de Kiato fel-a Pantaleão I, tempos depois de seu dominio absoluto. A população do Reino era de dez milhões de habitantes, como provava o ultimo recenseamento, feito com a maior exactidão. No tempo da decadência nunca fora pos¬ sível sabel-a ao certo. Logo que o povo começou a regenerar-se, a cum* prir os seus deveres, estatuiu-se que, na segunda quinzena do mez de Janeiro, compareceria á presença do chefe da communa o pai de familia ou quem suas vezes fizesse, a inscrever no registro de recenseamento o nome, edade, estado, profissão de cada um dos membros de sua familia. Quando se encerrou o serviço, podia-se dizer que estavam alistados todos os habitantes do Reino. Não se fez despe- za. Uma só commissão não foi nomeada. Avisado o cida¬ dão, que devia em tal tempo comparecer ao serviço do censo, não faltava ao dever. Pantaleão I dividiu o Reino em circumscripções que chamou «kiatisito», cada uma com população não excedente a cem mil almas. O kiatisito era governado por uma junta composta 86 ftodolpho Thcophilo de tres membros, nomeados pelo rei. O suffragio univer¬ sal havia sido supprimido. A junta governava por tres an- nos. Ao findar o mandato, tres mezes antes, enviava ao rei uma lista dos homens, maiores de cincoenta annos, de cada kiatisito. A escolha se fazia á sorte, porque eram todos iguaes. O cargo não era remunerado. Limitava-se a acção do poder publico a gerir as finanças da localidade, rece¬ ber as espórtulas que davam a titulo de imposto, e vigiar as fronteiras do Reino. Ver um kiatisito era ver em miniatura uma photo- graphia da capital. Os governadores cuidavam, com excessos de zelo, das relações com estrangeiros dos centros visinhos. Para um cidadão sahir temporariamente do paiz, eram feitas tantas exigências, o processo tão longo e complicado que era preferível sahir de vez. O estrangeiro que entrava pe¬ las fronteiras era, ao chegar, interrogado por um dos mem¬ bros da junta e espiado noite e dia — serviço este feito por todos. Tinham horror ao homem de outras terras por jul¬ garem-no um animal empestado, prevenção semelhante á do homem branco dos Estados Unidos da America do Norte pelo negro. Desde a escola primaria á universidade ouviam prelecções, narrativas de factos, no sentido unico de Jhes prevenir o animo contra os habitantes das outras regiões da terra, em que eram cultivados os grandes vicios e ama¬ dos os pervertedores da humanidade — álcool, syphilis e fumo — de modo que não podiam deixar de sentir essa re¬ pugnância. A sua superioridade era incontestável: Tinham a certeza d’ella, todas as vezes que se comparavam com os O reino de K i a t o 87 estrangeiros que aportavam ao Reino. Nunca tinham visto uma das mais fortes e sadias creaturas de outro clima, que, comparada a elles, não fosse um tarado, um poço de dia- theses, as mais horríveis! Physicamente, um aleijão; mo¬ ralmente, bêbado, devasso !... O kiatense tinha consciência do seu valor, de que a differença entre elle e outros homens dos mais civilisados do mundo era a mesma que entre o hotenttote e o ho¬ mem culto da Europa. Mesmo assim, escudado em sua superioridade, o Poder Publico vigiava o estrangeiro. E essa vigilância devia continuar sem esmorecimen- tos. A propaganda contra os inimigos do homem prose- guiria dia e noite, por todos os meios, empregando-se nel- la o melhor do esforço e da intelligeneia. O cidadão do Kiato estava purificado, mas podia ser de novo empestado. Devia olhar para a creatura de outra terra como para um animal, o macaco por exemplo. Puros eram os primeiros homens quando sahiram das mãos de Deus. Tempos depois perverteram-se. A degene¬ ração começou em Noé. O anathema lançado pelo patriar- cha no filho Cham, por ter zombado delle quando bêbado, é um symbolo. Cham representava o álcool. Condemnados ficariam, até a quinta geração, a todas as desgraças, os que delle fizessem uso. E o homem foi se empestando, depra¬ vando-se até cahir apodrecido nos muros de Sodoma e de Gomorrha. A putrefacção era physica e moral. Para sanear aquelle ambiente corrompido por toda a casta de doenças e vicios, desceu o fogo do céo, o másculo purificador, e instantes depois, da esterqueira humana só restava um montão de cinzas e uma estatua de mulher. As cinzas do 88 Rodolpho Theophilo incêndio não se tornaram inócuas; levavam o germen do mal: mais tarde, invadia Roma, contagiada pelo vicio em suas diversas etapas... A organisação política do Reino garantia a cada ag- gremiação autonomia e liberdade, obedecidas as leis ba- sicas impostas pela Nação, que se resumiam nestes dois artigos: «Cumpre o teu dever e respeita os direitos de teus semelhantes». O kiatense, depois que entrou em convalescença, to¬ mou na mais alta consideração a hygiene. As moléstias que reinavam endemicamente foram supprimidas depois de ob¬ servados os preceitos hygienicos. Uma d’el!as, das que maior numero de victimas fazia, era a «ankilostomiasi». Como o ankilostomo não havia de morrer, si os focos, o seu habi¬ tat, a sentina, a agua aseptica, haviam sido destruídos por completo ? No tempo da decadência, em sua maioria atacada de miséria organica, não parecia a mesma aquella gente. Nada d’aquelle ar de vencida, cançada, estropeada; nada d’aquelles gemidos ao menor esforço, De uma agilidade pasmosa, caminhava agora léguas e léguas sem fadiga, o sangue parecendo espoucar-lhe pelos poros. Até os sevan- dijas, as pragas haviam sido exterminadas pelo rigoroso aceio. A extincção dos paiasitas do homem não admira tanto como a dos animaes. E’ verdade que a veterinária chegara em Kiato á perfeição, como todos os ramos do conhecimento humano. Tão bôa a saude dos animaes quan¬ to a dos homens. Diversas epizootias grassavam, fazendo grandes es- 0 reino de Kt a to 89 tragos nos rebanhos, mas foram desapparecendo com o saneamento do paiz. A mosca, o mosquito, o carrapato, a pulga, o gafanhoto, o percevejo, eram especies desappare- cidas. Os germens pathogenos existiam, mas inoffensivos, não vencendo a resistência dos phagocythos creados em organismos completamente sãos e, portanto, vigorosos tam¬ bém. Em começo, devia ter sido assim. O infinitamente pequeno formou o primeiro elo das cadeias animal e ve¬ getal. Elle habitou primeiro a terra, inoffenssivo, porque as suas aggressões ao homem eram repellidas sem que elle as percebesse. Não foi a civilisação que degradou o homem, foi o álcool, a syphilis e o tabaco que o estropearam. A perversão dos costumes acompanhou, passo a passo, as so¬ ciedades civilisadas, porque o virus da degeneração as ha¬ via contaminado. CAPITULO XI A LITERATURA P ARA se avaliar um povo nada mais é preciso que sua literatura. Paterson quiz aprofundar os seus estudos sobre a gente do Kiato no passado e no presente. Melhor que a sua bibliotheca, que fonte procuraria para beber noticias da origem e da vida desse povo? Procurou, pois, a casa dos livros, o tabernáculo em que se guardavam as relíquias mentaes de muitas gerações passadas, o esforço de tantos homens já desapparecidos ou ainda vivos. O edifício em que funccionava a bibliotheca era um grande palacio, construído no tempo da decadência. Diri¬ giu-se á portaria: aberta. Uma larga escada de mármore negro reluzia, mordida pelo sol da manhã, que entrava em fartas ondas, portas a dentro. Em letras negras lia-se, en¬ cimando o atrio — «Bibliotheca Publica». Paterson subiu. Chegando ao patamar, achou-se num vasto salão deserto, que parecia convidar ao estudo, á me¬ ditação. A’s paredes, rigorosamente limpas, estantes de tres metros de altura, o verniz preto a espelhar ferido pela luz> 92 Rodolpho Theophilo que, illuminando fartamente o recinto, se reflectia nas vi¬ draças protectoras dos livros. Ao centro do salão, mesa de dez metros de compri¬ mento, ènvernisada de preto, cercada de cadeiras, que sob ella se escondiam, deixando ver somente os espaldares. De espaço a espaço, uma escrivania com seus pertences, ca¬ dernos em branco, lapis, pennas, canetas e canivetes. Uma placa de pedra embutida no alto da parede do fundo tra¬ zia o numero 1. Paterson procurou os empregados, ao menos um botão electrico para chamal-os; não encontrou. Correndo a vista pelo salão, leu na parede do fundo do compartimen¬ to, por cima de uma pequena banca — «Informações». Dirigindo-se para lá, viu sobre a mesinha um gran¬ de livro. Abriu-o. Era uma noticia completa do estabeleci¬ mento, em diversas línguas. Informou-se, então: os salões eram em numero de dez, no salão numero 1 encontravam- se, por exemplo, a historia antiga, as obras scientificas de alguns dados paizes. Cada salão tinha o seu catalogo de todos os autores, por ordem alphabetica, com o numero das estantes e das prateleiras. Era facilimo encontrar um livro... O que mais admirava Paterson era a ordem, oaceio, o methodo em tudo. Não havia visto pessoa alguma, em¬ bora as estantes estivessem todas abertas. E* verdade que em todas ellas havia um aviso: — «Tire o livro com cuida¬ do, leve-o com carinho, manuseie-o sem maltratal-o, depois traga-o e colloque-o no mesmo lugar em que o encontrou. Assim elle servirá a muitas gerações» — recommendação que era attendida. Em outra qualquer parte do mundo, qual a biblio- 0 reino de K ia i ô 93 theca ou estabelecimento que estaria aberto noite e dia, sem ser saqueado? A questão era não ficar guardada. Com empre¬ gados vigilantes mesmo, quanto livro teria sido furtado, quanta pagina arrancada por preguiça de fazer-se a copia, quanta caneta, lapis, canivete carregados! Todas essas mi¬ sérias, praticadas no Kiato antigo, seriam hoje a morte moral de um homem. Nem mesmo o estrangeiro que frequenta¬ va a bibliotheca se animava a commetter taes delictos, por¬ que bem sabia que era vigiado. Enganava-se suppondo-se a sós: olhos que os seus não viam, não o perdiam de vista. Paterson consultou o catalogo alphabetico. Queria o «Novum Organum» de Bacon, livro raro, que havia mui¬ to desejava conhecer. Tinha-o procurado inutilmente em diversas capitaes. Achou-lhe o roteiro: salão numero 6, es¬ tante 25, prateleira 8. Dirigiu-se para lá. Estava o «Novum Organum» no mais perfeito esta¬ do de conservação. Sentou-se á mesa para satisfazer, na- quellas paginas, a curiosidade de seu espirito. A obra era interessante por archaica. — Era a chimica no berço, eram as primeiras linhas do methodo experimental, as bases do grande edifício da sciencia moderna. Depois de duas horas de leitura, repoz no seu logar a obra, tomou o chapéo, a bengala e encaminhou-se para a escada. Ao chegar ao patamar, um clarão, offuscante como um relampago, deslumbrou-o: uma lampada brilhava, illuminando estas letras negras: «Dr. King Paterson. Tenha a bondade de voltar, as- signar o livro de visitas, aberto sobre a mesa do salão nu¬ mero 1. Escreverá o seu nome, naturalidade, profissão, es. tado, e que livros consultou. Agradecido». 94 R,odolph o Theophilo Paterson ficou estupefacto. Cada dia que passava em semelhante terra mais a admirava. Sabia que deviam vi“ gial-o, como estrangeiro, porem tão originalmente nunca suspeitou. Sanada a pequena falta, desceu e seguiu em rumo do hotel. Conversando com Robert sobre o caso, soube que o kiatense não frequentava a bibliotheca durante o dia e sim á noite; o estabelecimento se achava aberto ás horas de trabalho paja os estrangeiros. Dispoz-se a voltar, como de facto voltou, ás sete horas da noite, afim de continuar os seus estudos. A primeira cousa que o impressionou, ainda na rua, foi a claridade offuscante de um sem numero de focos eléctricos, que sahia pelas janellas do edifício e se espalha¬ va pelas cercanias. Subiu. Os salões estavam cheios. Rara a mesa com um lo- gar vasio. O silencio era tal que se ouvia o volver das fo¬ lhas dos livros. O atrito do lapis, da penna escrevendo, todos esses leves ruidos se fundiam num sopro brando, que em cadencia estranha enchia o vasto salão. Paterson, para não perturbar o silencio tumular da estancia, entrou subtilmente, como um felino. Accomodados chapéo e bengala, foi ao catalogo geral das obras dos kia- tenses, antigas e modernas, onde as artes, as sciencias, as letras estavam representadas. Escolheu um romance do tem¬ po da decadência: «A queda». Logo ás primeiras paginas, viu que lia scenas da vida de uma sociedade de todo corrompida. O autor, sec¬ tário da escola franceza, cultivava o thema eterno — o adul- 0 reino de K ia t o 95 terio; mas em uma linguagem crua, mais crua que a de Zola na «Terra». O enredo era conduzido com arte, as scenas vividas, as personagens moviam-se, nós as viamos como vivas. O vigor da expressão, o estudo dos diversos estados d’alma, a descripção das sensações, faziam do livro excellente in¬ centivo, ou antes, optimo manual de perdição. Que diffe- rença da escola ingleza! pensava Paterson. O romance inglez, forte nas descripções, não desnu¬ dando chagas que, a bem da moral, devem estar sempre veladas, deleita, moralisa, edifica. Dickens, por exemplo, tem paginas admiráveis de psychologia, paginas descripti- vas intensas, mas é artista, que não desce á analyse dos estados pathologicos do espirito. «A Queda», pathologia de uma alma enferma em todos os seus detalhes, era a repetição das mesmas scenas de adultério tantas vezes celebradas. Uma mulher que en¬ tra na vida mundana, cercada de admiradores de sua rara formosura; que, escudada na virtude, resiste até mais não poder ás seducções; e que, afinal vencida, para se ver livre do marido, mata-o. As peripécias, descriptas com tal maestria, tornavam-no óptima lição de adultério. Para a arte não ha immoralidade; mas o artista deve ter pudor, não deve cultivar o «feio» de preferencia ao «bello», e nunca o obsceno. Zola por exemplo, em alguns de seus livros, moralisa escadalisando. Para mais realçar a belleza de um membro são, apresenta primeiro a fealda¬ de repellente de um membro gangrenado. Descreve a enfermidade sem escolher termos, indo ás vezes até á ob¬ scenidade. Paterson voltou na noite seguinte á bibliotheca; a Rodolph o Theophilõ mesma concorrência. O segundo romance do tempo da de¬ cadência, que leu, tinha o titulo — «Coração de mãe». Libia, uma mulher formosa, nova, casada, rica, ho¬ nesta, frequentando a alta sociedade, tinha um filho unico idolo do casal. O marido, um guapo rapaz, amava-a. Era feliz. Um dia, seu. lar foi invadido pela desgraça. A crean- ça mordida por um cão damnado — prologo de uma tragé¬ dia — o medico foi chamado immediatamente. Era um ho¬ mem novo, bem apessoado, que desde muito tempo ali¬ mentava ardente paixão por Libia. Nunca tivera coragem de lh'a declarar, tal o respeito que impunha o ar senho¬ ril daquella casta e formosa mulher. Um pensamento maldito encheu a alma do doutor: possuir aquella carne, tel-a ao contacto de sua carne, sor¬ ver a grandes haustos o perfume que delia se evolasse quando o seu ser se crispasse na volúpia do goso. Possuil- a, gosal-a, antes que fosse preciso infamar-se, violar a cons¬ ciência, lançar um anathema sobre o seu nome. Obrigal-a- ia a trocar a honra pela vida do filho. Valeu-se Libia das lagrimas, implorou piedade, mas o seductor, na febre da paixão, consciente de seu poder, (só elle, no momento, possuía o antídoto da raiva e ademais ausente o pae do enfermo) o seductor, impassível, exage¬ rou a urgência da applicação do serum, fazendo ouvir o seu ultimatum: — ou ella se entregava, ou teria de ver morrer o filho hydrophobo, amordaçado, para não se mor¬ der a si e aos outros. A infeliz mãe ajoelhou-se-lhe aos pés, pediu-lhe pie¬ dade, as mãos supplices, os olhos quebrados, numa langui¬ dez dolorosa, empanados de lagrimas, que se succediam O reino de K ia t o 97 celeres. Não se apiedou elle; pelo contrario, accendeu-se-lhe mais a paixão, que o devorou inteiro. A sua carne, fremin¬ do de desejos, respondeu ás lagrimas daquella mãe torturada: — Alguns minutos mais de demora, seu filho estará perdido. Libia, prostrada ainda, no auge da angustia, concen¬ trou no olhar toda a ternura de sua castidade agonisante. os últimos lampejos da luz de sua honra que bruxoleava, prestes a apagar-se, e fitou o seductor esperando commovel-o. O medico comprehendeu: aquelle olhar era o derra¬ deiro esforço, a extincção das energias daquelle espirito. Possuiu-a ali mesmo, mas possuiu o corpo de uma mulher em syncope, apparentemente morto, sem vibrações e sem gosos... Quando Libia deu accordo de si, estava em sua al¬ cova, o filho salvo, emquanto o medico, reflectindo em sua casa nas scenas passadas, era presa de idéas mortificantes. Um pensamento sobretudo o acabrunhava: — não tinha gosado Libia, mas violado o seu cadaver... Fôra um infame, um covarde!... Lúbrico como um capro, atirara- se sobre a victima e, quando a cingiu ao peito e colou os lábios aos lábios d,ella, molhados de lagrimas, já ella estava sem sentidos. A vista, empanada pela concupiscên¬ cia, não via decompostas as feições da mulher em que ce¬ vava a sua paixão, a pallidez de cadaver, os olhos de cí¬ lios mal cerrados, deixando perceber uma esclerotica onde se afogava um iris opaco, como velado pela morte. No auge da volúpia, não sentira a frieza do corpo d’aquella mulher nova, que a syncope tinha esfriado. Gosara uma estatua como de pedra, apenas humidecida de um suor glutinoso. 98 Rodolpho Theophi lo Libia, por sua vez, tinha vaga idéa do que se havia passado até o momento em que ouviu o ultimatum do se- ductor: «Alguns minutos mais de demora, seu filho estará perdido». Lembrava de que estas palavras a atordoaram. Sentiu um vasio na cabeça, os olhos esfriaram-se-lhe, como dois globos de gelo, teve uma sensação de fim, o corpo a tomar proporções taes que parecia tocar o tecto, a vista tendo eclypses até que num delles a visão não mais se fez, acabando-se com ella a consciência. A ultima impressão que lhe ficou foi a da constric- ção do busto, a de um corpo que lhe aquecia os lábios... E a vida pareceu cessar. Quanto ao acto carnal, ignorava-o por completo. Só mais tarde teve a prova material delle. Sua castidade não na havia perdido; sua honra não havia sido offendida nem em sonho. Continuava pura perante sua consciência... E Paterson fechou o livro. Querendo, agora, conhe¬ cer a vida de Kiato moderno, escolheu um de seus roman¬ ces contemporâneos — A Felicidade. O primeiro capitulo deu-lhe a conhecer a feitura do livro: scenas populares, photographias da vida campezina em toda sua simplicidade e pureza de costumes. Scena- rios descriptos com vigor e arte, o leitor tinha a sensação do real, tal a nitidez dos quadros; uma aguaforte emfim. Os campos pareciam naturaes, com flores e perfumes tão activos que impressionavam ao olfacto. Esse ninho de felicidade abrigava um casal, que para ali entrára na alvorada da vida, e, hoje, já em meio da jornada, cercado de crescida prole, vive muito bem com o seu Deus, com os seus gados, tirando da terra — mãe de to¬ dos os homens — o pão de cada dia. O reino de Kiato 99 Os amores daquelle casal haviam sido castos como os das borboletas. O entrecho da novella, um idylio de beija-flores, de cujas scenas simples, que não sacudiam os nervos com o horrível, a arte tirava encantos, symphonias que embriagavam a alma do leitor. «A Queda» — deixára o espirito de Paterson ator¬ doado pelo escandalo, pela maldade humana; «A Felicidade» embevecera-o na contemplação de scenas placidas, vividas no paiz do sonho. O romance era todo inteiro uma can¬ ção que enternecia a alma. As próprias sombras, que fa¬ ziam a mortecor do quadro, não chegavam a dar tons de tristeza á aquarela. Na terceira noite, voltou Paterson á bibliotheca para consultar alguma obra scientifica de autor kiatense. Encon¬ trou — «A origem da vida». O assumpto era vasto e suggestivo. Delle grandes homens se haviam occupado, sem achar a verdade. Darwin, Lamark, Haeckel, Quatrefages, Spencer, pretenderam achar a incógnita do problema na geração espontânea e no trans- formismo; chegaram a crear uma escola, o «darwinismo», bonito e bem architectado edifício que não resistiu aos embates das escolas que contra elle se formaram e acabou ruindo, porque a sua fundação repousa sobre uma base falsa, um espaço vasio, que era o intermediário, o elo que unia o homem ao mais perfeito dos macacos. Paterson estava ancioso por conhecer as ideas do autor. Seria possível que o problema do apparecimento da vida sobre a terra, até hoje insolúvel pela nossa carência de conhecimentos, aquelle povo o tivesse resolvido? Bem podia ser que lhe estivesse reservada essa agradavel sur- preza. 100 Rodolpho Theophilo Leu o livro em tres noitadas. Os primeiros capítu¬ los, destinados á critica do darwinismo, provavam a falsi¬ dade da escola. Sobre a geração espontânea, fazia conside¬ rações baseadas nos estudos de Pasteur. Dava grande im¬ portância á theoria da fermentação, estudo que devia des¬ vendar o mysterio da vida e da morte e portanto da ge¬ ração espontânea. Sobre as forças dissymetricas no desen¬ volvimento da vida, que Pasteur estudara com grande in¬ teresse, para resolver o problema dos organismos vivos ap- parecidos sem ascendentes, o da germinação sem semente, pensava que o sabio francez chegaria a descobrir a verda¬ de, embora grandes scientistas como Biot acreditassem na geração espontânea. Aristóteles e sábios de seu tempo ha¬ viam crido nella. No século XVIII, Helmont ensinava como se faziam camondongos. Ainda hoje, alguns povos acreditam que dos cabellos da cauda do cavallo geram-se enguias nos lagos de agua doce; que os insectos «louva-Deus» são pequenos ve- getaes que se transformaram em animaes. O microscopio muito contribuía para animar os que acreditavam na vida gerada por si mesmo. O autor citava factos que bem deixavam ver que elle estava a par da questão da geração espontânea desde Aristóteles. O cardeal Polinac, lembrado por elle, dizia, no co¬ meço do século XVIII: «animaes e vegetaes foram creados, tudo no mundo sahiu do ovulo ou da semente». No meiado daquelle século, dois padres, um inglez e outro italiano, terçaram armas discutindo a geração espontânea. Buffon entrou na peleja, pela doutrina da vida gerada por si mes¬ ma, com tanta felicidade que chegou a fazer escola. Vol- taire, com a sua costumada ironia, entrou na questão di" O reino de Kiaio 101 zendo: — E’ estranho que homens que negam o poder creador de Deus arroguem-se o poder de crear enguias». Em discussões e experiencias passaram-se os séculos XVII e XVIII; já no meiado do século XIX, Pasteur ma¬ tou a questão da geração espontânea. Teve de bater-se com inimigos do valor de Pouchet, Joly e outros. Todas as suas experiencias se baseavam no methodo experimen¬ tal. O microscopio prestava-lhe grandes serviços. A fauna e a flora atmosphericas, até então ignoradas, faziam-lhe re¬ velações estupendas. Antagonistas contradiziam-nos allegan- do, baseados em factos mal observados, o apparecimento da vida, a fermentação em líquidos asepticos em presença do ar atmospherico. Os infinitamente pequenos eram a causa da fermentação — affirmava Pasteur. Pouchet negava aquella asserção firmado num facto por elle observado nas planícies dã Sicília, no Etna, e no mar. Affirmava que a atmosphera era própria á genese or¬ gânica em toda a parte, nas cidades as mais populosas, na vastidão dos mares, nas maiores altitudes. Num decimetro cubico de ar do cimo do Hymalaia ou da rua mais central de Londres obter-se-ia a geração de legiões de microzoarios ou de mucidinéas. Pasteur aprofundava cada vez mais os seus estudos sobre a fermentação, os quaes dariam em resultado provas irrefutáveis contra a pretendida heterogenia ou geração espontânea. Chegou ao conhecimento de que ha seres mi¬ croscópicos, que vivem sem ar — os chamados «anaeró¬ bios», e seres aos quaes o ar é indispensável á vida — os «aerobios». Convencido de que o instincto da conservação é in- nato, o que se vê até nos animaes unicellulares, assistiu á 102 Rodolpho Theophilo lucta do mycoderma aceti com as anguilles, batendo-se es¬ tas pelo ar atmospherico. Dando grande valor ao infinitamente pequeno, con¬ siderando-o factor primordial da vida sobre a terra, excla¬ ma o sabio francez: «Se os seres microscopicos desapparecessem do nosso globo, a superfície da terra cobrir-se-ia de matéria orgâni¬ ca morta e cadaveres de todo o genero (animaes e vege- taes). São os infinitamente pequenos, que dão ao oxigê¬ nio principalmente as suas propriedades comburentes. Sem elles, a vida seria impossível, porque a obra da morte fica¬ ria incompleta». O autor commentava com muita sabedoria estas pa¬ lavras de Pasteur. Sem a putrefacção, que é obra dos mi¬ croorganismos, como se faria a resurreição da carne, como seriam restituídos á natureza os elementos que constituem a matéria organica para a formação de novos seres ? Só a putrefacção, só os microorganismos podem decompor a ma¬ téria organica, completar a obra da morte, alimentar a vida. O autor considerava, depois dos estudos de Pasteur» morta para sempre a theoria da geração espontânea. Re- geitava todas as idéas apparecidas e procurava provar com os conhecimentos actuaes, consultando a historia natural, a paleontologia, e todas as sciencias, que a vida somente po¬ deria ter apparecido em um meio, como o nosso planeta, em que só houvesse compostos ternários e corpos simples, a matéria inorgânica, mineral. Estudou a origem e formação da terra, as idades por que passou, as forças que actuaram sobre ella quando a esphera não tinha a crosta solidificada e a forma actual. O reino de Kia t o 103 Abria de um lado a Biblia e do outro a sciencia. Pondo de parte o symbolismo, o estylo rebuscado do livro santo, via-se que as idéas eram as mesmas, apreciando fac¬ tos que ficaram escriptos, não nos hieroglyphos, nos perga¬ minhos, porém nas folhas dos grandes livros da Terra — os terrenos da sua crosta. A formação geologica, os perío¬ dos de fogo e agua por que passou o globo, descriptos pela Biblia, a paleontologia os confirmava. Que a terra teve origem ignea, passou queimando no espaço séculos ou milênios tem-se a prova material to¬ das as vezes que penetramos as suas entranhas, percutimos o seu esqueleto, todo formado de rochas plutonicas. Nesse periodo, a sua constituição era semifluida, o que prova a forma actual do globo, dilatado no equador, achatado nos polos, forma essa devida á força de rotação impressa á esphera ainda em não completo estado de soli¬ dificação. O calor central, a existência do pyrosphero, que pa¬ rece a alguns geologos duvidosa, os vulcões, os tremores de terra, os geysers, dizia o autor, são provas materiaes. Ao periodo do fogo seguiu-se o d’agua. A Biblia fala de um diluvio universal, em que a agua cobriu os mais elevados píncaros das cordilheiras. Esse diluvio, a não ser um symbolo, foi posterior ao periodo neptuniano, que se seguiu ao periodo plutonico. Naquella epocha não exis¬ tia alteração alguma, não havia relevo na face do globo. O levantamento das montanhas teve logar quando os ga¬ zes produzidos pelas combustões, ficaram retidos nas en¬ tranhas da terra e a sua força expansiva actuava sobre a crosta mal solidificada ; a parte mais tenue cedia, levantan¬ do-se camaleões colossaes, os Andes, o Hymalaia e todas / 04 Rodolpho Theophilo as cordilheiras que existem hoje. A’ proporção que a cros¬ ta ganhava espessura, augmentava a sua resistência, dimi¬ nuía o relevo, reduzido este aos montes, aos pequenos ou¬ teiros, que salpicam hoje a face do planeta. Essas alterações foram as derradeiras e fracas con- torsões de uma formidável crise epiléptica por que passou o globo, crise que o abalou, que o sacudiu até ás funda¬ ções. O período neptuniano não é, portanto, o diluvio uni¬ versal. A matéria organisada não existindo, como Noé vi¬ via? Afogado, diz o autor, esteve o globo por muitos sé¬ culos até que aflorou no immenso oceano o primeiro pon¬ to, o Quarisankar no Hymalaia. Outros pontos foram apparecendo, até que se indivi- dualisou a terra; separaram-se os dois elementos — terra e mar. Devia ter sido uma convulsão cyclopica, de annos, talvez, taes foram as alterações que se operaram á superfí¬ cie do planeta. A terra, que era uma, foi dividida em par¬ tes— os continentes. Ilhas appareceram, isoladas ou juntas formando archipelagos. No pincaro das montanhas, em di¬ versas latitudes, elevavam-se pennachos de fumo negro, sa- hido das chaminés dos vulcões que appareciam pela pri¬ meira vez. Estas valvulas de segurança abriram-se durante uma preamar descommunal do pyrosphero, determinada por uma convulsão titanica do globo: Crateras abrir-se-iam para, em vomitos formidandos, sahirem os gazes, as maté¬ rias incendiadas que premiam o envolucro terráqueo, ou o globo iria pelos ares. Ficou mais ou menos firmada, nesse período, a homogenia da terra. O autor estuda a causa da erupção do vulcão e apre¬ senta ideas suas. Diz elle: a lava vem das entranhas da 0 reino de Kialo 105 terra, mas qual a força que a faz subir? Acredita-se ser da agua, porque todos os vulcões, á excepção de tres ou qua¬ tro na Asia, acham-se nas ilhas ou nas costas. Presume-se ser a força expansiva do vapor d’agua que determina a ascen¬ são da lava. Essa hypothese não satisfaz, atfendendo-se á disposição interna do vulcão, imaginaria é verdade. Supponha-se que sobre o lar do vulcão, em fusão ignea, cae uma grande massa d'agua. Dá-se a espfterolisa- ção — a agua vaporisa-se immedíatamente. O vapor sobe pelo conducto até escapar-se pela cratera. A pressão do vapor d’agua jámais se faria sobre o lar do vulcão. Quan¬ do a cratera se açha obstruída pelo ultimo vomito de lava, que não poude ser lançado fóra, a força expansiva dos ga¬ zes o atira no espaço, um bloco ás vezes de algumas tone¬ ladas. Não explicaria a ascensão da lava o vasío que se faz no conducto pela subida do vapor d’agua ? Não se da¬ rá o mesmo phenomeno que se observa nas bombas, quan¬ do se faz o vasio nos tubos ? Objectarão que a pressão da atmosphera é que faz a agua subir nos tubos das bombas e - como ella se exerceria no centro da terra ? O meio lá é outro e não se pode saber as modificações que soffrem as leis physicas, que conhecemos, em uma temperatura que funde todos os corpos. Além d’isso, a agua tem um limite de ascensão nas bombas. As lavas dos vulcões também o tem. A dynami- ca terrestre deve ser outra no centro do globo. Para que a pressão do vapor d’agua fizesse a ascen¬ são da lava como faz a pressão atrnospherica na columna barometica, era preciso que se exercesse sobre a lava e, assim, em primeiro logar, o vulcão vomitaria esta e de¬ pois o vapor d’agua. O que se observa é justamente o 106 Rodolpho Thcophilo contrario. Os gazes, subindo, fazem o vasio no conducto e a lava os acompanha porque a natureza tem horror ao vᬠcuo. Diversas têm sido as hypotheses para explicar os phenomenos eruptivos. Attribuiram-nos ao incêndio do car¬ vão de pedra, á oxidação dos metaes alcalinos, o potássio por exemplo — hypotheses que não resistem á mais fraca objecção. Si a erupção do vulcão tivesse como causa a combustão da hulha, outras deviam ser as substancias vo¬ mitadas pelos vulcões. Si tivesse por causa a oxidação do potássio, seria o hydrogenio o producto regeitado. Al¬ guns geologos pretendem encontrar a causa das erupções nas marés do pyrosphero, hypothese pouco plausível, uma vez que as erupções não são periódicas. Pensam outros que a erupção é devida á compressão do pyrosphero pela di¬ minuição do raio terrestre em consequência do resfria¬ mento. Esta explicação também não satisfaz, visto as inter- mittencias que se observam nos phenomenos eruptivos, pe¬ ríodo de repouso e actividade. A geologia, estudando a camada solida do planeta, conhece a origem das rochas, o período ou idade dos ter¬ renos. As rochas de origem plutonica têm estructura crys- talina e nem uma cellula organica. Elias formam o esque¬ leto do globo, vestido pelas rochas de sedimento, neptu- nianas, dispostas em estractus concordantes ou discordan¬ tes, onde se encontra a matéria organisada, restos dos pri¬ meiros animaes que habitaram a terra. Nos terrenos de se¬ dimento, ha também, intercalado, o terreno crystalophelea- no ou metamorphico, composto de rochas que, fluidas, vie- O reino de Kiato 107 ram do centro da terra e subitamente se crystalisaram quando cahiram nagua. A vida manifestou-se primeiro no seio das aguas. Os vestígios do primeiro animal inferior, que a paleontologia encontrou, foram do «ezoon canadense», no terreno Lauren- ciano da epocha paleozootica. A primeira cellula vegetal, ou antes, o primeiro or¬ ganismo uni-cellular não se encontrou. A monera, laço de união que liga as duas cadèias organicas, vegetal e animal, não foi achada. A vida havia de facto, diz o autor, appa- recido em um meio todo inorgânico. Quem creou a pri¬ meira cellula, deu-lhe vida, mysterio que até hoje não foi desvendado pela sciencia. A paleontologia, estudando os terrenos, encontra as algas marinhas ao lado dos zoophitos. As duas cadeias ou, antes, os dois reinos vivos foram crescendo, aperfeiçoando- se e, quando ás suas especies o meio se lhes tornava in- hospito, passaram a viver na terra. Como nas aguas cresceram as plantas crassas, as cryp- togamas, e á sombra delias os vermes rastejaram, não tar¬ dou o aperfeiçoamento das especies, a creação de novos seres. Os vegetaes phanerogamos ostentaram as suas fron¬ des, com flores e fructos, immensas florestas, a cuja som¬ bra pastavam os grandes pachidermes. A evolução dos reinos vivos, narrada pela Biblia, comprovara-se pela paleontologia. O ultimo elo da cadeia animal fôra o homem, dizia o livro santo. A regular gradação na escala da vida, desde a mo¬ nera até o homem, foi a tentação de Darwin. Nesta evo¬ lução progressiva, julgou achar a solução do grande pro¬ blema: estava explicada, pelo «transformismo», a origem 108 Rodolpho Theophilo da vida sobre a terra. Foi essa, dizia o autor, uma mira¬ gem que deslumbrou grandes espíritos. O darwinismo não explicava a homogenia dos seres vivos, quanto mais o apparecimento da vida no planeta. O homem, como todos os animaes superiores, veio já adulto ao mundo, isto é, si são as mesmas as leis biológicas que nos regem e regeram a elle nos primeiros tempos. Si são as mesmas, si o homem moderno é igual biologicamente ao homem antigo, só a symbolica creação de Adão pode explicar a origem da vida. O autor pensa que a humanidade não ouvirá nunca a ultima palavra sobre o assumpto. Não será o raciocínio que desvenderá o mysterio. Os processos empregados pela sciencia — analyse, synthese, o methodo experimental, emfim — não darão em resultado sinão hypotheses. Os documen¬ tos a consultar, as causas a investigar serão sempre as mes¬ mas — a crosta da terra, que com pouco resultado a pa¬ leontologia estuda ha muitos annos. Os hieroglyphos, as tradições dos egypcios nada di¬ zem de positivo e a noite de mysterio continua a envolver a historia da origem da vida sobre a terra. Paterson chegou ao fim do livro na mesma in¬ certeza, convencido de que o caso é d'aquelles a que a ra¬ zão, a sciencia e a intelligencia humana jámais encontra¬ rão uma explicação que satisfaça. Será sempre a eterna ques¬ tão : «qual mais antigo, o ovulo ou o ser que o gerou» ?... São as causas primarias que o homem não explica¬ rá nunca. São os phenomenos magnéticos, eléctricos, a ra- dio-telegraphia, o sonho, os phenomenos espiritas, telepa- thicos, cuja causa escapa aos nossos sentidos, e a sciencia 0 reino de Kia t o 109 não explica porque não pode comprehender o «porque» dos factos. Paterson, na segunda noitada, voltou á Bibliotheca afim de conhecer a literatura didactica do povo kiatense. Começou pelos livros antigos. As obras em que a infanda devia adquirir conhecimentos práticos e moralida¬ de, fortaleeer e formar o caracter, sobretudo estimular-se, eram de uma banalidade que tocava á demencia. Eram tri- viaes contos da carocha, reinos encantados, sem arte, sem graça, sem estylo e até sem grammatica. Nelles, de peda¬ gogia nem sombra. Enfastiado, escolheu um livro moderno. A differença começava pelo trabalho material. A impressão era nítida quanto podia ser, o typo graüdo, bem entrelinhado, de leitura facil. O papel de excellente qualidade e a encader¬ nação artística. Na capa lia-se: — «Leitura infantil — Quarta classe. Distribuição gratuita». A instrucção publica em Kiato era sem onus de es- pecie alguma. Os livros fornecia-os grátis o governo, desde a escola primaria até a universidade. Não havia razão para que o kiatense não soubesse ler. Pelo ultimo recenseamen¬ to, numa população de alguns milhões, não havia um só analphabeto. Paterson folheou o livro e viu que tinha entre as mãos uma collectanea muito bem organisada de escriptos de au¬ tores celebres, sobre diversos assumptos e em linguagem correcta e facil. Eram lições de cousas, era o util unido ao agradavel, prendendo com muita arte a attenção da creança. O primeiro artigo intitulava-se «O carbono». Este corpo era apresentado em todas as suas variedades, desde 110 Rodolpho Theophilo o diamante, que adorna as mulheres dos paizes em deca¬ dência, até o carvão das cosinhas. Seguia-se outro sobre a agua. O autor estudava-a em todos os tres estados, o seu grande valor como ali¬ mento e o perigo de usal-a pura. Dizia que a agua podia ser aseptica e não ser potável, que podia ser chimicamen- te pura e não ser aseptica, e exemplificava de accordo com os conhecimentos da creança. Seguiam-se outros artigos e entre elles um de gran¬ de interesse— «Rudimentos de toxicologia». Escripto com muita clareza, ensinava a creança a defender-se dos venenos Paterson fechou o livro admirando a didactica em Kiato. CAPITULO XII O INTERIOR DO REINO P ATERSON, uma manhã, conversava com Robert, so¬ bre as maravilhas de Kiato. Comparava o viver d’a- quella gente com o do povo inglez, considerado o mais livre dos povos, onde a Justiça tinha os olhos venda¬ dos. Que era Londres, comparada áquella capital de meio milhão de habitantes ? Uma miséria. As artes, as letras, as industrias, a agricultura offuscavam-se ante o progresso daquelle reino livre. Paterson philosophava. A Inglaterra é o paiz do ouro, mas lá se morre de fome. Kiato é o paiz da fraternidade humana. Londres tem lords que soffrem da gota, que morrem de inanição, porque não podem engulir, que têm cancros que lhes roem o estomago, que os privam de tomar alimen¬ to mezes e annos, como os miseráveis das pocilgas, que morrem de fome porque não têm que comer. Na Inglater¬ ra, é preciso um exercito para velar pela paz do Reino; em Kiato, é a consciência do cidadão que vela pela tran- quillidade publica. O rigor das leis inglezas não impede que o «gin’s 112 Rodolpho Theophilo palace» seja frequentado até aos domingos. No dia do des¬ canço, recolhe-se uma quarta parte da cidade. Fecham-se todos os estabelecimentos, mas ficam abertas, isto é, de portas encostadas, as tavernas. Os operários procuram o «gin’s shop» em vez da igreja. Não achariam consolo no officio divino; e bebem aguardente até se atordoarem. A lei ingleza o que não quer é o escandalo, é o es¬ pectáculo publico de homens sentados em frente do balcão da taverna, a beberem até se acabar o derradeiro penny. Não sendo offendidas em publico as leis do império, que o álcool continue degredar o genero humano, pervertendo- o espiritualmente, envenenando-o corporal mente, até o re¬ duzir ao vil estado de perfeita alimaria. Paterson iria adeante, nessas considerações, si Ro- bert não lhe dissesse: — E pensará você que é só na capital que se observa rigorosamente a lei? «La force prime le droit», como di¬ zia Bismark; só se observa esse attentado á liberdade nos paizes em decadência. Aqui é o contrario — «Le droit pri¬ me la force». Em qualquer recanto de Kiato, o cidadão vive e procede de accordo com a educação civica e moral que recebeu. Em toda a parte, vê-se a simplicidade pontifi¬ cando. E' um povo sobrio em tudo. A felicidade não está no luxo. A mulher dos centros mais civilisados do mundo, com todas as sedas e joias, comparada á mulher de Kiato, em toda a sua simpleza, é uma desgraçada. Vou contar-lhe uma viagem que fiz á fronteira do Reino, para melhor conhecer o povo a que estava deveras affeiçoado. Eu tinha de fazer uma viagem de algumas cen¬ tenas de kilometros em estrada de ferro. Não sei si sabe que os trens aqui são movidos por tração electrica, apro- 0 reino de Kia t o 113 veitada como força motriz para todos os misteres. Aban¬ donou-se a agua, o vapor d’agua. Dos moinhos de vento nem mais as azas restam abertas no espaço. Quiz conhecer uma das cidades manufactureiras, a cidade, ou antes, o kiatisito de Liserna. Não pedi informa¬ ções por não ser preciso. O serviço de informes é feito pela imprensa, uma vez por semana, e tão perfeito que, de minha casa, conhecia todas as localidades do Reino, suas industrias, população, vida, distancia da capital, uma verda¬ deira photographia da circumscripção. Admirei o progresso de Liserna. A ceramica tinha ali chegado á perfeição. Segundo um estudo que li, nem a porcelana de Sé- vres, importada no tempo da decadência, nem a da Chinaj Japão, e outras procedências podiam competir com o pro- ducto kiatense, cuja superioridade era devida á matéria pri¬ ma — o kaolim. Grandes jazidas de feldspatho em decom¬ posição, mas purissimo, sustentavam cerca de doze fabri¬ cas. A porcelana era de uma transparência quasi diapha- na e da espessura de uma casca de ovo. Colorida, era dos mais bellos effeitos. Tomei o trem que me devia levar a Liserna, em uma bella manhã de verão. Logo ao installar-me no vagão, avaliei a superioridade d’aquella via de transporte sobre as innumeras em que tinha viajado em diversas partes do mundo. Os assentos eram commodos divans, sobre molas para amortecer os choques da tracção, como si estes não estives¬ sem amortecidos pelas possantes molas em que, sobre os eixos das rodas, se assentavam os carros. Pouca trepidação. As refeições foram servidas em vagões especiaes. O REINO DE KIATO — 8 114 Rodolpho Theophilo Poucos pratos, muito mais fructas, hortaliças, doces, do que carnes. Approximava-se a noite e pensava eu nos dormito- rios. Logo que escureceu, raiou o sol electrico, illuminando tudo. Aquelles que quizeram matar o tempo lendo, foram ás estantes, pois as havia em todos os vagões e escolheram o livro que os devia entreter. A’s dez horas em ponto, a sineta tocou a silencio. Immediatamente levantaram-se, afas¬ taram-se todos os passageiros das cadeiras, enfileiraram-se entre uma ordem de divans e a outra, no estreito corre¬ dor. Imitei-os. Desoccupados os assentos, ouviram-se ran¬ ger de molas, estalidos, engrenagens mordendo-se, e o in¬ terior do vagão transformou-se em dormitorio. Os divans viraram biombos; minutos depois, cada um era pequeno aposento, com cama, lavatorio e seus pertences. Era a hora de dormir. A’s 6 horas da manhã, a sineta deu o signal de des¬ pertar. Feita a «toilette», sai do biombo. Em instantes des- appareceu o dormitorio e voltou o antigo vagão. Até Liserna, nenhum accidente alterou-nos a placida viagem. Chegámos á cidade ao amanhecer de um bello dia sereno e luminoso. Era uma miniatura da capital do Reino, cidade nova e cidade antiga. Ao saltar do vagão, fui cumprimentado por um ra¬ pagão de mais de vinte annos, que me interrogou em fran- cez. Vendo que me exprimia mal, dirigiu-me a palavra em inglez. Desejava saber quem era, o que andava fazendo, interrogatório muito semelhante ao que se faz na capital ao estrangeiro que ali aporta. O reino de Kiato 115 Satisfeita as exigências, disse-me que, não havendo hotel, eu seria hospedado por conta da kiatisito e convi- dou-me a acompanhal-o. Perto da estação erguia-se um pe¬ queno chalet rodeado de jardins, á porta do qual parámos. Convidou-me a entrar e disse-me estar eu em minha casa, as horas das tres refeições, e a hora de recolher-me para dormir. Dito isto, retirou-se. — O mesmo povo original por toda a parte — disse commigo. Já na Estação, ao tomar o trem, estranhei a au¬ sência de bilheteria. A passagem seria paga no trem, si o passageiro entendesse de pagal-a. O mesmo systema dos bondes. Ao apresentar-me a bolsa, disse-me o conductor que, si quizesse, daria uma es¬ pórtula. Calculei os kilometros pela tabella das estradas in- glezas e dei-lhe quantia equivalente. Instantes depoL, vol¬ tou a mostrar-me as moedas, perguntando se não me en¬ ganara. Achara excessiva a espórtula! Disse-lhe que não. Passado o meu espanto, entrei para o interior do chalet. Que vivenda confortável! Eram quatro os compar¬ timentos para dormir, espaçosos, arejados, bem illuminados pelas janellas que se abriam para o jardim. Todos desoc- cupados e numerados. Na pequena sala de visitas, uma mobilia de poucas peças e uma estante com livros, todos modernos, de auto¬ res kiatenses. Entre elles, um grosso volume, muito bem impresso, com finas gravuras — O kiatisito de Liser- na. Lel-o-ia á noite. Havia mais, sala de jantar, banheiro e latrina, esta tão perfeita como as da capital. — Não sei se você já observou, King Paterson, que 116 Rodolpho Theophilo aqui o systema de exgoto é differente do usado em Ingla¬ terra e nas outras partes do mundo ? — A primeira vez que aqui entrei em uma sentina, notei que o ambiente era inodoro, respondeu Paterson. — E nem podia deixar de ser assim, si as matérias fecaes, quando caem na bacia e são arrastadas pelo jorro d’agua para o syphão, já estão esterilisadas, inócuas, pode- se dizer, por um processo que só em Kiato se conhece. O modo por que a latrina funcciona, todo automᬠtico, ê muito engenhoso. A pessoa senta-se e, quando se levanta, o apparelho faz por si a descarga, ao mesmo tem¬ po, que uma esponja molhada em um liquido antiséptico faz a antisepsia do assento de madeira. Depois que tomei posse de minha nova habitação fui visitar a cidade. Era uma miniatura da capital. Vi escolas primarias em profusão. De ensino supe¬ rior, havia um lyceu em que se estudavam preparatórios e uma escola de agronomia. O titulo que em todo Kiato mais nobilitava um ho¬ mem era o de «agronomosir». No tempo da decadência, era o de doutor, mas doutores houve em tal abundancia que perderam toda a cotação. Eu queria de preferencia conhecer Liserna industrial, manufactureira, pois havia sido negociante de porcelana. A’s onze horas menos dez minutos da manhã, voltei á casa, para almoçar ás onze, como me haviam ordenado. Recolhi-me ao quarto para fazer as lavagens do cos¬ tume. Ao soarem onze horas, soou a campainha electrica. Fui para a sala de jantar. Não encontrei pessoa al¬ guma. A mesa estava posta, sentei-me. Que lauto almoço! O reino de K ia í o 117 Carne branca, pouca; hortaliças, fructas, doces, em quanti¬ dade. Almocei. Sahi depois, para visitar as fabricas de ceramica. A mesma ordem, a mesma disciplina das fabricas da capital, todos os machinismos movidos pela electricidade. O dono do estabelecimento falou-me em inglez. E’ preciso dizer que em Kiato não havia lingua nacional. A usada no tempo da decadência, pouco falada hoje, foi subs¬ tituída pelos idiomas mais usados no mundo. Pedi licença para visitar a exposição dos productos da fabrica. Levaram-me a um vasto salão, fartamente illu- minado pelo sol. Encostadas ás paredes, dezenas de prate¬ leiras e nellas milhares de objectos de porcelana. Approxi- mei-me. Deslumbraram-me os tons da louça pintada e o leite da louça branca. As tintas de tão vivas pareciam naturaes. Vendo-se uma folha, um fructo, tinha-se a illusão do real. Minha admiração chegou quasi á estupefacção dean- te de duas jarras que iam para o rei de Inglaterra. Foram as maiores, e as mais perfeitas que tenho visto. Nos luga¬ res nús, a louça era translúcida, de uma diaphaneidade ma¬ ravilhosa. Arabescos feitos com muita arte, via-se enge¬ nho em todas as linhas da paizagem. Numa das jarras, a ornamentação representava um pedaço de floresta ao amanhecer, com aves revoando, bor¬ boletas aos beijos e beija-flores a sugar o mel. Tinha-se a illusão do real. Um dos colibris azul-e-ouro, que, com uma poupa quasi ferrete, adejava sobre a flor de um cacto, que se enredava como serpente no tronco de uma palmei¬ ra, dava aos sentidos a sensação do natural. Nunca os meus olhos de amador tinham admirado pintura igual. 118 Rodolpho Theophilo A outra jarra, ornamentada em genero differente, representava uma caçada de javalis. O porco, ao sahir do covil, perseguido por um caçador e uma matilha amestra¬ da — todas figuras animadas, correndo. O jogo da muscu¬ latura nas diversas posições era tão bem estudado como se fosse uma photographia instantanea. Scena representada tão ao vivo, a illusão tamanha, parecia ouvir-se o rosnar da féra. Sai da fabrica fazendo um juizo elevadíssimo da ce¬ râmica em Liserna. Não quiz regressar á capital sem conhecer uma al¬ deia. Na pequena agremiação, o povo devia ser mais atra- zado. Consultei o «kiatisito de Liserna» e li que a doze kilo¬ metros, havia a aldeia de Orthoze com uma população de 5 mil habitantes de agricultores e pescadores, dez escolas primarias e um campo em que se ensinavam princípios de agronomia. A viagem para Orthoze foi em automovel, pois o Reino é cortado, retalhado mesmo, de óptimas vias de communicação, ferreas ou de rodagem. Chegando á aldeia, logo que desci do vehiculo, fui cumprimentado e interrogado por um senhor de meia ida, de, que me disse ser o governador da aldeia. Offereceu-se para mostrar-me as escolas, o campo agrícola e os seus instrumentos de pesca. Acceitei e, depois de ter tudo visto, fiquei certo de que, vendo-se a capital do Reino, se tinha visto todo o Kiato em miniatura. Despertaram-me attenção os apparelhos de pesca. Pouco entendido em semelhante industria, pedi explicações ao governador, que, com grande cortezia e proficiência, explicou*me a excellencia das redes inventadas ali, de facil manejo, dando esplendido resultado O reino de K ia t o 119 Disse-me que Liserna era abastecida de peixe por Orthoze, que o mar era muito piscoso, mormente a bahia, á margem da qual se achava a aldeia, bahia de aguas sem¬ pre quietas e serenas. Tomei o automovel, voltei á cidade e, no outro dia, á capital do Reino. CAPITULO XIII O PARQUE DA MORTE P ATERSON havia corrido toda a capital, viste muita cousa interessante, original, mas faltava-lhe ainda uma surpreza. Uma manhã, passeava pelo lado Occidental da cida¬ de, quando a rua desembocou em uma praça. Na parede da esquina á direita, a certa altura, uma placa embutida com esta inscripção: Parque da morte. — Exquisito titulo, pensou. Era o primeiro distico que via. Percorrera a capital inteira e não encontrára uma rua ou praça com nome pro- prio; todas tinham numero. Estranha a arborisaçsfe. Cy- prestes e chorões plantados em renques formavam alame¬ das, ruas espaçosas, que iam ao fim do parque. Era dia alto, o sol resplendia, afogando em luz aquel- las plantas, em cuja ramaria o vento esfusiava, arrancando accordes de uma cadencia fúnebre. Não se sabia qual mais triste, si o cypreste perfilado, com os ramos desfiados pelo vento, si o chorão com os galhos pendidos em funeral. A estancia era triste. 122 Rodolpho Theophilo Paterson foi entrando. — Onde estariam os tumulos ? A casaria dos quatro lados da praça toda vasia, al¬ gumas ameaçavam ruina. Qual a causa de tamanho aban¬ dono? Não podia atinar. Cemiterio ? Não podia ser. Nem um transeunte a quem falasse. Aventurou-se por uma das alamedas, parou a meio, estupefacto, deante de uma forca. — Uma forca!... E a machina de matar, ali perfilada havia séculos, continuava em seu mutismo de cousa. Paterson aproxi¬ mou-se mais do instrumento abjecto, mais ignóbil do que a guilhotina: pregada ao madeiro, em perfeito estado de conservação, apenas perfurada em diversas alturas pelo ca¬ runcho, uma placa com esta inscripção em alto relevo: «Conservada para relembrar a maldade humana, seu falso critério, e sua falta de senso. A morte nunca corri¬ giu, nunca exemplificou. Nos paizes onde existe a pena de morte, o crime não desappareceu. Este local ficou sendo um campo santo, abandonado pelos vivos, desde que o kiatense comprehendeu, purificando-se, que o homem não tem o direito de matar. Elevai, visitante, o vosso pensa¬ mento ao além, onde pairam os espíritos dos que aqui fo¬ ram assassinados em nome da justiça». Paterson sahiu arrepiado. Conservar aquelle odioso e vil instrumento, como uma pagina de historia antiga, só esta gente! Chegando ao hotel, trocava ideas com Robert. O reino de Kia to 123 Contou-lhe o hoteleiro as homenagens que todos os annos prestava a população da cidade aos que haviam sido estrangulados ali. Não prestavam cultos aos mortos porque elles não morriam, acabavam-se. Tinham piedadde dos as¬ sassinados em nome da lei. Não sabendo onde repousavam os restos delles, fizeram da forca um lugar sagrado, aonde todos os annos iam em romaria levar-lhes o preito de sua lembrança e condemnação aos que os mataram. Era uma enorme romaria. Iam em grande recolhi¬ mento, e, ao pé da forca, cada um lançava a sua offeren- da, um ramalhete de flores. O que mais edificava naquel- la homenagem era o respeito com que todos se portavam. Que differença da romaria á morada dos mortos no dia de finados, nos paizes civilisados do resto do mundo ! Que ba- chanal! O luto pesado dos visitantes — um escarneo aos mortos. Nem numa feira ha tanta irreverencia. Os mauso- léos serviam de mesa ás vitualhas e vinhos do festim ma¬ cabro ! Paterson, ainda impressionado com o parque da morte, dizia comsigo: — Conservado o Forum, devia ter sido conservada, como foi, a forca. Esta é a consequência d’aquelle. O as¬ sassino é uma consciência que se desvairou ao serviço do mal. A justiça são consciências desvairadas, que, sem res¬ ponsabilidade, mandam matar. O assassino tem atenuantes; a justiça não. O maior crime de 93 foi o assassinato de Lavoiser, sabio que valia mais que milhares de homens como Ma- rat, seu assassino. A Revolução Franceza maculou esse de¬ licio, infamou-a até a consumação dos séculos. Os benefí¬ cios que fez a sociedade não a remiram do attentado con- 124 Rodolpho Thcoplíi lo i tra a humanidade, privando a sciencia de ião grande obreiro. O assassino e a justiça a culpa os irmana. Ambos são rdos, ambos mataram. A ignóbil machina era conservada como symboio da decadência de seus antepassados e um protesto de repro¬ vação á lei, que em nome da justiça manda matar. Porque a civilisação não supprimíu a guilhotina ? Porque a civilisação só aperfeiçoa o viver material do ho¬ mem. A moral estaciona. As artes, as scíencias progri¬ dem, dando á humanidade mais conforto, mas deixando inculta a sua moral, Que 6 a guerra sinão a perversão da moral no gráo mai3 elevado? A ultima guerra que foi si¬ não um formidável ataque de epilepsia que convulsionou os paizes mais cultos do mundo? A sciencia deu-lhe armas pavorosas, como os gazes asphixíantes, os submarinos, 03 aeroplanos c um sem numero de machinas de matar. No homem de bôa moral, a consciência não se des¬ vaira. Emquanto o homem matar seu semelhante, está mui¬ to longe da civilisação, que é a fraternidade humana. A sciencia encurtou as distancias, conquistou o espaço, viajou no fundo dos mares, alliviou-nos dores do corpo, deu-nos a palavra de um outro continente, tornou fáceis e commo- dos os nossos meios de transporte, mas nada fez em pról da humanidade, porque não cultivou a sua moral. O homem, emquanto destruir o seu semelhante, será um barbaro. O rei, o presidente da republica, o tuchaua, os dirigentes de homens, emfim, não têm o direito de at- tentar contra a liberdade de consciência de seus súbditos. Emquanto não lhes for defeso esse crime, o homem não será livre. Emquanto os governos obrigarem o cidadão a exercitar-se na arte de matar, a humanidade não progredirá. 0 reino de Kiaio 125 Minha moral diz: — «não matarás». O governo obri¬ ga-me a entrar para o exercito, a fazer um curso, uma aprendizagem, cujo unico fim é aperfeiçoar-me na arte de destruir. A idéa de matar horrorisa-me. Tenho de apren¬ der a manejar as armas para um dia satisfazer, talvez, aos caprichos do chefe da nação, bater-me, tirar a vida de ho¬ mens de outras terras, de outros climas, que nunca me of- fenderam, ou de meus proprios irmãos. E’ horrível. Si resisto, prendem-me, arrastam-me para o cárcere, infligem- me torturas, emquanto minha mulher e filhos padecem fome, porque lhes arrancaram o arrimo, o chefe da famí¬ lia, porque este obedeceu á sua moral, seguiu os ditames de sua consciência. Os dirigentes de homens justificam as classes arma¬ das para a defeza da patria, em caso de agressão estran¬ geira. Os grandes exercitos, pelo contrario, incitam a guer¬ ra. Um homem desarmado soffre melhor as offensas. Tem-se uma idéa muito falsa de patriotismo. Quem ama a sua patria quer vel-a na paz, procura por todos os meios evitar os desastres de uma guerra, embora tenha a certeza da victoria. Governo patriótico é aquelle que con¬ jura as crises internacionaes pela arbitragem, pela diploma¬ cia e nunca pelas armas. A prova tivemos na ultima guerra. A Allemanha quiz esmagar a França, porque tinha um for¬ midável exercito. Entraram na lucta quasi todas as nações do mundo. Qual o resultado ? Morreram milhões de ho¬ mens e as nações que se bateram ficaram quasi anniquila- das, e tão cedo não se levantarão. E’ o caso de dizer: não houve vencidos nem vencedores. O Kaiser e o tuchaua têm a mesma moral: matam os seus semelhantes. CAPITULO XIV O CENTENÁRIO I A fazer duzentos annos que o povo de Kiato começara a sua regeneração. Essa data, a maior para uma na¬ ção, maior mesmo do que a do seu descobrimento, põr isso que a da sua independencia, como seria feste¬ jada pelos cidadãos do Reino ? King Paterson disse a Robert que lhe era impossí¬ vel sahir de Kiato sem assistir ás festas do centenário. Não sabia de que maneira um povo tão original commemoraria a maior data da patria. Não podia imaginar quaes seriam as demonstrações de contentamento d^quelles cujo sentir era tão differente do dos outros povos da terra. Havia assistido a coroação de reis, em que as festas deslumbravam pelo esplendor. Formaram milhares de sol¬ dados para fazer continência ao soberano, que subia ao throno; cantaram-se te-deums em todas as cathedraes; sal¬ varam as fortalezas e a esquadra; tocaram todas as ban¬ das de musica da cidade, no momento solemne em que se fazia a coroação. O mundo official trajava uniforme de gala. O povo enchia as ruas e praças para assistir á passagem do cortejo, ao desfilar das tropas, para ouvir musica. Era-lhe 128 Rodolpho Theophi lo indifferente a ascenção de um rei ao íhrono. Seria sempre o eterno tributário, o antigo servo da gleba. Paterson relembrava em soliloquio o jubileu da rai¬ nha Victoria, celebrado em Londres, em que se gastaram milhões esterlinos. Que a rainha havia feito para tantos louvores ? Cumprido o seu dever, em um longo período de cincoen- ta annos. Aquelles milhões, gastos em festas sumptuosas e attrahentes, activaram a germinação da semente do socia¬ lismo. A rainha passou em seu trem de gala e o povo aes- cobriu-se, aclamou-a com delirio — manifestação falsa como falso é o critério da multidão. A mesma gente que gritava — «God save the queen» — mudaria em um instante de pen¬ sar e gritaria—«Ao cadafalso a rainha». — Sempre foi e será âssim o julgamento dos homens. Contou Robert os preparativos da grande festa, que seria um acontecimento visto pela primeira vez em todo o mundo. Commemoração nacional, na qual tomaria parte o Reino inteiro, seria organisada por uma commissão de nove sábios, executadas as obras por uma turma de cem enge¬ nheiros. Annunciada que foi a subscripção nacional para a commemoração do centenário, começaram a chegar espór¬ tulas de toda a parte. A Nação podia fazer as despezas, o rei podia fazel-as, mas não exprimiriam o pensar de todos, a manifestação não seria popular. As quantias enviadas á commissão de sábios montaram, em poucos dias, a milha¬ res de contos de réis. — A commissão de engenheiros trabalha ha cinco annos, com milhares de operários, nas construcções que se O reino de Kia t o 129 fazem nos suburbios da cidade. E’ uma Babel. Imagine você uma grande villa toda de tendas leves, para agasa¬ lhar cada uma cinco ou seis pessoas, e terá visto a edifica¬ ção. São feitas de papelão comprimido, especialidade muito superior á que se usa nos Estados Unidos. Nós admiramos lá aquellas construcções pela resistência. Aqui têm dobrado valor. Basta dizer que a maxima espessura do papelão é de dois millimetros. As informações de Robert despertaram em Paferson o desejo de ver os commodos que se estavam preparando para hospedar metade da população do Reino. No dia se¬ guinte, dirigiu-se ao lugar indicado, fora de portas. Paterson pensou ir a pé, porque ignorava que o pri¬ meiro serviço foi a construção de uma linha ferrea para o transporte de materiaes e, depois, dos hospedes nos dias da festa. Em cada trem, um vagão para passageiros. Tomou o primeiro trem. Minutos depois estava na cidade em cons- trucção. Muito antes de chegar, já lhe atroava os ouvidos um ruido surdo, cavo, que não era somente o do rolar do trem; era de um timbre mais alto, e ao mesmo tempo abafado como o de um trovão que muito longe ribombasse no es¬ paço. Apeou-se no centro das obras e teve immediata- mente a noção precisa da monumental empreza. Em uma area de centenas de kilometros, espalhava-se um formiguei¬ ro humano. No ar vibravam sons de todas as alturas e tim¬ bres, desde o deslisar suave do pincel nas fachadas das ten¬ das, até o grito estridente das limas nos dentes do serrote. Naquella amalgama de ruidos, não se percebia vóz huma¬ na. Os obreiros pareciam mudos. As ordens eram trans- 130 Rodolpho Theophilo mittidas pela sineta ou pelo apito. O engenheiro trabalha¬ va ao lado do operário. Não se conhecia, pelo traje, o pro¬ fissional. A roupa era do mesmo tecido para todos, gran¬ des e pequenos; só variava na côr. E isso para todas as classes, desde a capital até a ultima aldeia do Reino. Faltava menos de um anno para ser commemorada a maior data da patria e muitas mil tendas já estavam prom- ptas. Paterson foi visitar algumas concluídas; ver todas era impossível. Tinham uma pequena sala, alcova, cosinha a electricidade, latrina sanitaria e banheiro. Sobre o peitoril da janella, lugares que seriam occupados por jarros de flo¬ res. O kiatense não sabia viver sem flores. O mais pobre tinha sua roseira. Os dias iam-se passando e a imprensa continuava muda sobre o programma da festa, o que intrigava Pater¬ son. Dizem que o povo inglez é excêntrico, porém, com¬ parado com o de Kiato, é em extremo communicativo. No jubileu üa rainha Victoria, relembrava, o «Ti¬ mes» publicava tres mezes antes o programma das festas e até o «menu» dos banquetes. Todos os dias inseria uma nota sobre os festejos. Não podia imaginar como aquella gente commemoraria o maior dia da patria. Nos paizes que tinha visitado, a America do Sul, por exemplo, os festejos, com raras variantes, constavam de comes e bebes, rethorica, officios divinos, musicas, fo¬ guetes e luminárias. Em Kiato — reflectiu — não haveria banquetes. Um povo que comia o sufficiente para não mor¬ rer de fome> sob rio até mais não poder, não mostraria a sua satisfação, a sua alegria, empanturrando-se como a bes¬ ta num capinzal. Si fosse em outra qualquer terra, aquella data que povo algum já tivera a ventura de commemorar, O reino de K i a t o 131 seria motivo para grandes comesainas e colossaes bebedei¬ ras. A humanidade é a mesma em todas as latitudes: sem álcool não ha contentamento. Não se comprehende ban¬ quete sem o vinho de Champagne nem este sem o brinde da pragmatica, como preceitua o protocollo da civilisação. Seria muito insulso, selvagem mesmo, sentarem-se á mesa algumas dúzias de convivas para festejar um facto glorio¬ so de sua patria, e levarem todo o tempo com os maxila¬ res em movimento, triturando iguarias, engulindo-as até fi¬ carem como ruminantes no período da segunda digestão. O banquete da civilisação é uma pantomima, mas não ha somente a mastigação prosaica da besta; ha algu¬ ma cousa espiritual, embora burlesca. Começa o ridículo pelo «menu», palavra exótica, importada da França, com umas tantas cousas que vão introduzindo e afrancesando as Américas. Paterson philosophava: — A França diz a meio mundo como deve vestir e o que deve ler. Dita-lhe o «menu», o protocollo das fes¬ tas. O baptismo dos pratos é cousa divertida. Si é em ter¬ ras em que a língua que se fala é a portugueza, é uma algaravia insuportável. Vêm «le petit pois, le foie gras, le dindon roti a Silva Gomes, la tainha escabeché, le bijupx- rá á bresilienne, goiabé». O «menú» e a sua escripta agradam aos fúteis, que vão empanturrar-se naquelle repasto, fazer o chylo de gi¬ boia farta ouvindo os brindes da pragmatica, a rethorica encommendada. Se o banquete é político, então, reveste-se de mais solemnidade, de mais etiqueta. E’ á noite, pela ra¬ zão de todos os gatos serem pardos. Seria muito despudor afrontar o dia, quando se vai glorificar um nullo. Ao es- poucar do champagne, phrase typica, ergue-se um dos con- 132 Rodolpho Theopktlo vivas e faz a apologia do homenageado, ordinariamente um imbecil sem valor, que a politicagem enthronisou. Ou¬ ve este os elogios atirados á queima roupa, em plena ve¬ rônica e levantando-se, muito commovido, agradece aquella prova de sincera estima e confiança de seus amigos, aos quaes hypotheca sua eterna gratidão — diz no dia seguin¬ te a imprensa... Passavam-se os dias e a imprensa não publicava o programma das festas do centenário. Paterson não se con¬ formava com semelhante silencio. O povo de Kiato não tinha nervos, e si os tinha eram de tempera differente dos da outra gente da terra. Em qualquer outra parte, os jor- naes se teriam occupado immensas vezes dos festejos, fa¬ zendo do reclamo uma fonte de receita. A cidade em cons- trucção estava a acabar e nada mais havia de preparativos. Uma manhã, King Paterson, já sem esperanças de novas, notou do lado oriental da cidade, engenheiros e ope¬ rários da ultima construcção. Nivelavam e limpavam uma planície baldia, na extensão de cinco a seis kilometros. Quiz informar-se do que se ia fazer ali. Reflectindo, viu que a resposta não satisfaria á sua curiosidade. Os ope¬ rários talvez ignorassem. Havia de adivinhar a obra a exe¬ cutar. Todos os dias lá ia, logo pela manhã. Um formigar de gente empregada em diversos mistéres. Tres dias depois da primeira visita, Paterson com- prehendeu o que se ia fazer. Um renque de columnas de madeiras alinhava-se nas bordas da extensa rua, dando a entender que se levantaria ali um extensissimo salão. Não se illudiu. A’ medida que o trabalho avançava, individualisava-se o genero de architectura. O reino de K ia t o 133 O material era o papelão comprimido. Encimando as columnatas, capiteis em um estylo novo, mais elegante do que o dorico, jonico, corynthio e outros. Faltava menos de um mez para a commemoração do centenário e não se sabiam como seriam as festas. Uma noite Paterson disse a Robert que a originalidade d’aquelle povo tocava ao absurdo. Robert protestou : — Nós, os outros habitantes do globo, não temos competência nem critério para julgar gente tão perfeita. Nos outros paizes, por exemplo, a emancipação da mülher dá uma perfeita idéa do progresso, da liberdade, da gran¬ deza, da cultura espiritual do povo. Aqui, quem fosse jul¬ gar a mulher pelos cargos que occupa, pelos direitos polí¬ ticos que exerce, tinha de consideral-a unica e simplesmen¬ te um animal que se reproduz. Puro engano. A mulher de Kiato está no seu verdadeiro papel, preenche perfeitamente os fins para que foi creada. A mulher no lar, cuidando da educação dos filhos, da formação do caracter d’elles nos moldes da sã moral, da sua educação physica, presta mais serviços á patria, ao genero humano do que no parlamento ditando leis. O exer¬ cício de profissões liberaes está em completo desacordo com o seu organismo.Ha períodos na vida em que todo exercício lhe é interdicto. E si ella sacrifica os deveres de mãi aos deveres de sua profissão, a humanidade será fatalmente prejudicada. Robert era hoje mais kiatense do que inglez. Paterson, depois de ouvil-o, oppoz-lhe algumas con¬ traditas. A mulher, disse, ficou estacionaria em Kiato. A sua acção social era ali completamente nulla. Dotada dos mesmos attributos intellectuaes que o homem, com mais 134 Rodolpho Thcophilo resistência ao soffrimento, por que a privaram aqui de con¬ correr para a obra do progresso, em que se empenha toda a humanidade? Robert comprehendia o valor das objecções de Pa- terson. Eram theorias das sociedades que se afogam na de¬ cadência, conscientes de sua degradação, impotentes para um acto de energia procurando salvamento. A kiatense vivia recolhida ao lar, entregue aos tra¬ balhos domésticos, formando cidadãos para a patria, culti¬ vando nelles os bons sentimentos, a sã moral; não era so¬ mente um animal que se reproduzia com prodigalidade, como a chamavam os que pregavam a emancipação da mu¬ lher, até o amor livre, nos outros paizes corrompidos pelo álcool e pela syphilis. Os que accusavam a fecundidade da mulher de Kiato, eram os mesmos que, pela fraude, por manobras criminosas, impediam o crescimento do genero humano. E quando falhavam os meios de impedir a fecun¬ dação vinha o crime — o infanticídio. No tempo da decadência, dizia Robert, havia no Rei¬ no todas as misérias dos paizes civilisados do mundo. A mulher era emancipada para todos os effeitos. Meretriz ou adultera, era livre. Hoje, porém, verdadeira mulher eman¬ cipada é a de Kiato. Chegou a libertar-se do jugo da car¬ ne pela purificação da própria carne. O que se vê nos paizes, em que a mulher está de todo emancipada, é a glorificação do vicio, é a decadência da especie humana. A perfeição, porém, está na fraternida¬ de humana. A virtude assiste onde os homens se amam. A virtude não circula em meios que o vicio corrompeu. Em Kiato, a noção que se tem da vida é perfeita. A mulher exerce o magistério emquanto solteira. Casada O reino de Kiato 135 que seja, isso lhe é interdicto. Como harmonisar os deve- es de mãi de família com os de professora ? Perdia a hu¬ manidade ou perdia a instrucção publica. Defeso ensinar ás casadas, tudo estava harmonisado. Que é a vida senão a eterna Iucta do homem pelo seu bem estar ? Desde as primeiras agremiações, o homem Iucta pelo progresso do machado de pedra, que foi o ini¬ cio da industria humana. Si o ideal da vida é a conquista do bem estar, a saude do corpo e do espirito, o kiatense o realisou. Elle conquistou o mais elevado lugar nas artes, nas industrias, nas sciencias, nas letras. Aperfeiçoou o que era conhecido e descobriu o que era ignorado. A electricidade servia em Kiato para tudo. Conhe- ciam-lhe os segredos, como povo algum da terra. O raio X não era descoberta local, mas o seu aperfeiçoamento foi uma de suas maiores conquistas. Com a óptica, haviam realisado milagres. A micros- copia foi até os limites do possível. Levaram as investiga¬ ções ao mundo dos infinitamente pequenos, até o derra¬ deiro elo, que une as duas cadeias da vida. Não era o au- gmento estupendo do diâmetro do corpo, era a illumina- ção deste. Via-se a «monera», aquelle argueiro, uma cé¬ lula somente, do tamanho de uma pulga, fazendo evolu¬ ções. Com o telescópio, chegaram a escalar o infinito, a aproximar-se dos outros mundos, mais do que todos os astronomos do globo. Tão perto chegaram, que lhes pare¬ cia ouvir a musica harmoniosa das espheras. Da lua, nosso mais proximo visinho, chegaram quasi á fala... Viram-lhe as montanhas nuas, mediram a abertura das crateras de extinctos vulcões, quasi ouviram a melopéa das vagas de 136 Rodolpho Theophilo seus mares, viram o relevo da crosta do planeta, despido por completo de vegetação. A geologia dos outros mundos, perdidos na profun- dez do espaço, muitos dos quaes a tal distancia que não ha algarismo, como bem disse Monsabré, que a represente, o sabio kiatense a conhece. Para medir estas distancias in- commensuraveis, quando se exgotaram os numeros da ari- thmetica, a sciencia tomou por unidade a luz, que cami¬ nha oitenta milhões de léguas por segundo. A luz que vem de astros tão distantes traz a nós a constituição mineraló¬ gica do astro de que emanou. A’s vezes, a luz que nos chega, diz o abbade, vem de mundos que são desappare- cidos. E que distancia nos separa d’elles? Uma distancia que a razão humana não concebe! Pode por ventura o ho¬ mem, com a razão, com a intelligencia e os sentidos que tem, comprehender o infinito, a eternidade? Não, porque é um mysterio. A espetrocopia está em Kiato tão adeantada, que de¬ termina não só os corpos simples como também os com¬ postos. São delicados tons das cores fundamentaes apresen¬ tadas pelo espectro, que chegaram a ser conhecidos depois de longa e paciente observação. Tudo que acabo de lhe dizer — continuava Robert — é para provar que o kiatense não estacionou quando se lhe purificou a carne; seu espirito alou-se a regiões, que jamais attingirão os outros povos da terra, emquanto não se purificarem também. Paterson, está você ainda com o espirito imbuido de idéas retrogradas. A felicidade é, para os povos em decadência, escravos do álcool, da syphilis e do tabaco, cousa toda relativa. O homem aqui não tem que se comparar, tem que se considerar. O reino de K i a l o 137 Pergunte ao cidadão de Kiato si é feliz; responderá que sim. Em todos os outros paizes da terra, a resposta seria condicional, a da lenda do homem sem camisa. Passadas que foram as primeiras impressões, você, King Paterson, devia ter sentido as revoltas que também experimentei. Fiquei aqui, como já lhe disse, por um acci- dente. Eu era commerciante e, como tal, tinha uma cultura medíocre. Na impossibilidade de regressar de prompto a Londres, comecei, para matar o tempo, a frequentar a bi- bliotheca. A leitura me foi interessando, abrindo horison- tes, que meu espirito desconhecia, illuminando-me emfim. Chegou um periodo de verdadeira ancia de aprender. Li por espaço de dez annos e, então, pude comprehender a felicidade deste grande povo. Eu me havia privado de hᬠbitos inveterados como o uso do álcool e do tabaco. Nos primeiros tempos, as saudades dos meus algozes foram taes que me fizeram soffrer penas iguaes á separação de entes que me fossem muito caros. Eu era novo, em plena virilidade, e a continência forçada da carne fazia explosões que me levavam ao deses¬ pero. Eram sempre sonhos eroticos que determinavam es¬ sas crises, a revolta da carne palpitante de desejos contra a castidade que não era a virtude monachal imposta, mas devida á falta absoluta de mulheres livres. Soffri muitos annos mas adaptei-me ao meio, que me purificou das mi¬ sérias physicas e moraes. O pavilhão que estavam construindo achava-se quasi prompto. Paterson notou que davam a ultima demão á obra. O salão media cerca de seis kilometros, com dois an¬ dares de archibancadas. Observou admirado uma rede de 138 Rodolpho Theophilo fios metálicos que se tecia do começo ao fim do pavilhão. No principio da galeria erguia-se um estrado de dois me¬ tros de altura a que se tinha accesso por escadas nas faces Iateraes. Para que seria aquelle lugar erguido do solo, aquelle palanque? Para ser occupado por pessoas gradas, os nove sábios ? Não, ali não havia hierarchias, todos eram eguaes. Seria para o rei e a familia ? Não era possivel; si o fosse, outra devia ser a ornamentação, dizia Paterson comsigo mesmo. Faltavam oito dias para a commemoração do centena- rio, quando a imprensa o annunciou assim: «A festa da commemoração do centenário, a eman¬ cipação physica e moral de Kiato, constará de uma sessão civica, na qual o rei lerá uma mensagem, a historia fiel do Reino, desde o tempo da decadência até hoje. A sessão co¬ meçará todos os dias a uma hora da tarde e durará o tem¬ po necessário á leitura do documento historico. A festa terminará por uma romaria civica, uma vi¬ sita aos maiores vultos da humanidade, perpetuados em es¬ tatua nas praças da cidade». Paterson não podia comprehender como a palavra do rei chegaria ao fim das archibancadas, em uma distan¬ cia de seis kilometros. Seria testemunha de mais um mila¬ gre d’aquella gente. Tres dias antes da festa, começára o serviço detrans, porte do pessoal do interior para a capital. O movimento de trens era constante. Entravam uns e sahiam outros. Kia¬ to era cortado de estradas de ferro em todos os sentidos, e todas movidas a electricidade. Aquella gente, que trazia semore o riso nos lábios, parecia ainda mais contente. A população da cidade, pode- O reino de Kia to 139 se dizer, estava nas estações das vias ferreas a receber os parentes e os amigos que chegavam. Cada habitação da cidade hospedaria o maior numero de pessoas que lhe fos¬ se possível. O excesso iria para a «cidade-hospedaria», on¬ de não faltariam aos recem-vindos, commodos e conforto. Pela madrugada do dia da festa, ainda chegaram trens. O dia da commemo ração do centenário amanheceu como outro qualquer dia. Nem uma demonstração de re- gosijo! Nem repiques de sino, nem alvoradas, nem fogue¬ tes. As fabricas abriram-se, os operários foram para o tra¬ balho, a vida continuou como nos outros dias. Paterson exasperou-se e dizia a Robert: — Dizem que o inglez é frio; mas este povo tem a frieza do cadaver. Como é o sentir desta gente? — Nós não podemos julgal-a; deante d’ella, somos anitnaes inferiores. O seu contentamento é todo espiritual. Os seus sentidos estão aperfeiçoados. Nella nada mais exis¬ te do aborígene. Os repiques de sino, a musica de panca¬ daria, os foguetes, enthusiasmam a plebe, a burguesia mes¬ mo, mas aqui não existem degradados. Tinha que ver este povo á frente de uma banda de musica, a fazer piruetas 1 Isso é para os paizes decadentes!... Paterson sahiu a ver a cidade: vivia a sua vida nor¬ mal. Os bondes trafegavam, as fabricas trabalhavam, nas ruas o movimento de todos os dias. Foi ao pavilhão, que¬ ria vel-o antes da sessão. Estava prompto o salão de seis kilometros. Não o ornavam bandeiras nem festões. Nas co- lumnas, enredavam-se virentes trepadeiras. De espaço a es¬ paço, nas archibancadas, jarros de fina porcelana de Lizer- na, com roseiras e tulipas, lyrios e jacynthos. Ao lado do estrado em que, provavelmente, se sentaria o rei, um ap- 140 Rodolpho Theophilo parelho, differente, mas parecido com gramophone, o qual, pensou, seria para reforçar a vóz do rei e transmittil-a até a derradeira bancada. Conhecia o microphono de Hughes; tinha lido alguma cousa sobre o megraphono, mas, ao seu ver, o som embora reforçado não chegaria a tão grande distancia. De semelhante povo tudo era de acreditar. Não aperfeiçoaram o raio X, a ponto de ver o or¬ ganismo humano funccionando sob nossos olhos, como o machinismo de um relogio ? Não estaria longe a verdade. Paterson voltou ao hotel, almoçou e, pouco depois de meio-dia, dirigiu-se ao pavilhão. As ruas formigavam de gente, que caminhava na me¬ lhor ordem. Paterson esperava que a multidão se azafa- masse, se acotovelasse, procurando occupar no pavilhão os lugares junto ao rei. Enganou-se. Iam entrando a passo tardo, em silencio, enchendo a archibancada. Cheia uma fila, enchiam outra e assim até a derradeira. Paterson foi occupar um dos últimos lugares, para poder avaliar o valor do apparelho que lhe levaria a mensagem. Precisamente a uma hora da tarde, entrou o re acompanhado somente dos seus dois filhos varões. Trajava, como elles, roupas leves, eguaes ás de seus concidadãos. E a familia do rei, a mulher e as filhas? A ausência completa da mulher na festa deu-lhe a comprehender a falta do elemento feminino real na sessão. Logo que entrou descobriu-se, como também os fi¬ lhos, e fizeram juntos uma profunda venia á multidão que enchia as archibancadas. De repente, aquelles milhares de homens se perfila- O reino de Kia to 141 ram, descobriram-se, c todas aqucllas cabeças se inclina¬ ram ao mesmo tempo, como si fossem de um só homem, correspondendo á saudação real. O silencio era tumular. A mudança de posição de muitas mil pessoas apenas produ¬ ziu um deslocamento no ambiente, um cicio brando. Outro som não se percebeu. Ali estavam milhares de macrobios que se ergueram, lépidos como os moços; não se ouviu o ranger das articulações, ainda bem lubrificadas, não enfer¬ rujadas pela velhice. Aquellas cabeças pretas e louras faziam um todo, salpicado de raros pontos brancos, as cans dos centenários. Não se via uma cabeça calva, nem tão pouco velhice pre¬ matura. No kiatense os primeiros cabellos brancos aponta¬ vam aos oitenta annos. Começou a sessão. O rei, figura mascula, viril como todo o homem de Kiato, perfilado, lançou um golpe de vista para o auditó¬ rio e começou a leitura da mensagem, em vóz cheia, forte e de um timbre sonoro. Suas palavras reforçadas pelo apparelho, eram leva¬ das até o fim do pavilhão, onde estava Paterson, absorto inteiramente, não só pela maravilhosa invenção, como pelas palavras criteriosas e sabias. A mensagem era uma photographia nitida do viver do povo desde as primeiras edades. Em estylo claro, conciso, sem uma palavra ambigua, eram narrados todos os acon¬ tecimentos, desde a fundação do Reino. Era uma noticia completa e perfeita das industrias, das artes, do commer- cio, das lettras, da sciencia e dos factos políticos. Narrava, não commentava. Paterson supportou de pé a primeira hora, a segun- 142 Rodolpho Theophilo da. No fim, a sua gota intímou-o a mudar de posição. Do joanete do pé direito, dores fulgurantes irradiavam-se pela perna acima, indo ao coração. Resistiu. Ainda uma hora devia estar de pé, e já as pernas lhe tremiam, zumbiam-lhe os ouvidos, as palavras do Rei se afastavam, a vista tinha eclipses, que se amiudavam : a vertigem estava próxima. Teimou em ficar de pé. A vista não voltou, o rosto cobriu-se do suor frio da morte, foi arreando o corpo, até sentar-se. Os visinhos olhavam-no e viram que era extrangei- ro, um degenerado, devastado pelo álcool e pela syphilis, que nem de pé podia estar por algumas horas, sem que cahisse como morto. Paterson, passado o atordoamento, não se atreveu a levantar-se. Concluiu-se a sessão ás cinco horas da tarde. A mul¬ tidão sahíu como entrára, em ordem, em silencio. Não hou¬ ve um encontrão, nem se ouviu um ruido forte. Apenas o rumor dos passos, que se fundia com o som suave da des¬ locação do ar. A’ noite, conversando com Robert, contou-lhe Pater¬ son o seu fracasso. As palavras do rei muito o haviam agradado; não perdeu uma só, até ficar atordoado. Pas¬ mou ante o poder do apparelho, que reforçava a vóz á al¬ tura de ser ouvida até no fim do salão. Extranhou a falta da mulher em tão importante cerimonia. Justificou-a Robert, dizendo que no lar era o seu lu¬ gar, que os deveres domésticos a prendiam á casa. Quan¬ do os maridos e hospedes voltassem da sessão, não seria melhor acharem a mesa posta, prompta a refeição? Assis¬ tiriam melhor á sessão lendo a mensagem, do que ouvin- O reino de Kia to 143 do-a. Nos paizes em decadência a mulher masculinisa-se e as¬ siste a todas as festas. Nas sessões scientificas ou literárias comparece, não para aprender, mas para mostrar a «toile- te», as joias. Aqui, a mulher não usa joias, nem tem as orelhas furadas. Não tem «toilete» a mostrar, nem olhares a trocar. A mulher raramente entende os discursos : ou não presta attenção ou não entram nos seus ouvidos as pa¬ lavras proferidas. Da mensagem, a parte qne mais agradou a Pater- son foi a que se referia a Pantaleão I. Niel, seu neto, fez- lhe a psycologia com mão segura, expondo em toda a he¬ diondez o facto criminoso, narrando-o, porém sem com- mentarios. Os dias que se seguiram ao crime, com as noi¬ tes de pesadelos pavorosos, o acordar do criminoso, os pri¬ meiros instantes conscientes, eram descriptos com tão vivas imagens, que se tinha a idéa de assistir á cruciante angustia do desgraçado rei. Relatou as lutas dos primeiros tempos, para impor novos moldes á vida d’aquelle povo completa¬ mente transviado pelo álcool. Occupou-se depois de Pantaleão II, seu pai, de como reinou e dos serviços que prestou á patria. Governo sem agitações, deu combate a syphilis e, todo entregue á saude publica, fez prosperar o reino. Ao occupar-se de seu reinado, disse apenas ter conti¬ nuado a obra de seu pai e de seu avô. Achando o caminho desbravado, limitou-se a conservar o que estava feito. Cinco dias durou a sessão civica commemorando a regeneração de Kiato. Na ultima sessão estava reservada a Paterson uma surpreza. Ao chegar á sua cadeira encontrou um livro grosso, nitidamente impresso, encadernado em couro, com o titulo 144 Rodolpho Theophilo «As festas do centenário» — livro a ser distribuído aos que tinham vindo á sessão e aos cidadãos de Kiato que não ti¬ nham comparecido. Terminada a leitura da mensagem, Niel fixou a vis¬ ta no auditorio e exclamou : «Concidadãos, continuae a cumprir os vossos deve¬ res, a respeitar os direitos dos vossos semelhantes e a paz reinará comvosco até a consumação dos séculos». E após o conselho convidou os circumstantes a acom¬ panharem-no a saudar os grandes bemfeitores do genero humano, perpetuados no bronze das estatuas nas praças da cidade. O préstito partiu acompanhando o rei. Nunca uma procissão civica teve tão grande realce e maior valor. Milhares de creaturas caminhavam em silencio, no maior recolhimento, tendo nalma a imagem querida da pa- tria e em mente a homenagem que iam prestar aos maio¬ res vultos da humanidade. A primeira estatua em frente da qual pararam foi a de Jesus Christo. O rei descobriu-se e ajoelhando-se disse: — Descobri-vos e ajoelhae-vos deante do homem que pregou, ha séculos, a fraternidade humana. Toda a multidão prostrou-se descoberta, ao mesmo tempo, como si fosse um só homem. Niel, ajoelhado, reci¬ tou o decálogo. Levantou-se depois e o cortejo seguiu. Adeante parou o préstito deante da estatua de Pas- teur. O rei descobriu-se e ajoelhou-se. A multidão imitou-o. Niel leu a inscripção do pedestal, ergueu-se e seguiu, acom¬ panhado do préstito. O reino de K i a t o 145 A terceira estação foi em frente á estatua de Pan- taleão I. O neto descobriu-se, mas não se ajoelhou. De pé, leu a legenda do pedestal e seguiu. Já no fim da cidade, parou o cortejo deante do vul¬ to que a gratidão do kiatense havia perpetuado — William Jenner. Niel descobiiu-se e leu o pensamento nacional so¬ bre aquelle illuminado, escripto na peanha de bronze. Os focos eléctricos começavam a illuminar a cidade quando se dissolveu a procissão. Estava acabada a primeira festa verdadeiramente cí¬ vica que a humanidade já havia feito desde que se civilisou. (Concluído no dia 16 de Junho de 1920, no Alto da Bonança — Ceará). ÍNDICE í — Nevrozicida. 7 II—Paterson embarca para Londres.15 III — A capital do reino. 21 IV — A imprensa. 35 V — Edifícios e estatuas.39 VI — A instrucção publica.47 VII — Agronomia. ..63 VIII — O imposto e a morte.67 IX — A casa real. , . . i . ... 75 X — Reorganisação do reino. 85 XI — A literatura. 91 XII — O interior do reino. 111 XIII — O parque da morte. 121 XIV — O centenário.127 V. . , ' Preçot 3$000